quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Autoestima: uma breve análise comportamental

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

Vamos começar pelo desmembramento da palavra: auto + estima. Auto é relativo a si mesmo. Autobiografia, por exemplo, é uma narrativa que conta a história do próprio autor que a escreveu. Estima é o apreço que se tem por alguém. Estima vem do verbo estimar. Estimar significa determinar o valor. Na frase, "os cientistas estimam que o sol ainda brilhará por 5 bilhões de anos", estimar significa calcular, ou seja, os cientistas calculam que o sol ainda vai brilhar durante muito tempo. De estimar vem a palavra estimativa, que é o mesmo que calcular aproximadamente. Quando se faz uma estimativa, na verdade está se calculando aproximadamente o valor de alguma coisa. Então o cálculo dos cientistas são estimativas, pois não podem determinar aproximadamente por quanto tempo o sol vai brilhar.

O que importa é que estimar significa determinar o valor de algo. A todo instante estamos determinando o valor das coisas. Uma pessoa pode ter para nós um valor maior ou menor dependendo do seu comportamento. Se seu comportamento é para mim fonte de reforçamento positivo, certamente essa pessoa terá um grande valor para mim. Valorizamos, por exemplo, os nossos pais, pois apesar de todos os problemas eles nos ajudaram e ajudam em diversas circunstâncias da vida. Sim, há aqueles que por motivos vários não valorizam seus pais, e isso é explicável pela história de reforçamento, pela história que está por trás deste relacionamento estabelecido entre filhos e progenitores.

Se por outro lado, o comportamento de uma determinada pessoa é para mim fonte de controle aversivo, esta pessoa terá então um valor menor ou nenhum valor, ou seja, minha estima por ela será muito pequena, meu sentimento de afeição por ela será bem diminuto. Como sentimento é comportamento, com pouca frequência demonstrarei minha afeição por esta pessoa, e se o fizer este comportamento não será assim tão intenso como seria com outra pessoa que tenho muita estima. Se assim o fizer a topografia (aparência/forma) do meu comportamento não demonstrará que meu afeto é assim tão intenso. Para entender porque sentimento é comportamento, leia outros posts em que esta questão é desenvolvida, para isso clique aqui.

Então, o leitor já deve ter percebido que o comportamento de estimar está relacionado com aquilo que sinto com relação às pessoas com quem me relaciono. Tem também relação com a forma como percebo as pessoas. Tanto o sentir quanto o perceber, que são comportamentos, são determinados pelas contingências de reforço que se fazem presente nos relacionamentos estabelecidos com as pessoas. Ou seja, o que sinto com relação a uma pessoa é determinado pelos efeitos dos comportamentos dela sobre os meus comportamentos.

Se os efeitos são agradáveis tomo essa pessoa como alguém agradável. Descrevo minha relação com ela como sendo uma relação agradável. Essa descrição é uma regra. Regras são descrições de contingências de reforço, descrições que fazem relação do "se" com o "então". "Se" eu fizer isso "então" acontece aquilo. Se eu me aproximar de "fulano" ele vai me tratar bem, então vou me sentir realizado. Consequentemente criarei circunstâncias que favoreçam o encontro com esse "fulano". Aqui temos a explicação para o comportamento de perceber.

As chamadas "representações mentais" que se formam a partir da percepção, são na verdade regras que descrevem relações do tipo "se"/"então". Não há representações mentais e nem há um processo chamado percepção que aglutina dados sensoriais e forma imagens na mente. Perceber algo é reagir a uma dada circunstância em função dos estímulos presentes nesta circunstância e das consequências gerados pelo nosso comportar-se. Se diz que o artista tem uma percepção mais refinada para arte do que o leigo. O artista tem uma história de reforçamento que modelou comportamentos de discriminar com maior precisão artes deste ou daquele profissional. Ele estudou, se informou, pesquisou, dedicou sua vida às artes, e nada mais natural que reaja a uma tela num museu de uma forma diferente da forma como reagiria o leigo.

O artista seria capaz de dizer que tinta foi usada na tela, quando ela foi pintada e a qual escola artística ela pertence, pois tem em seu repertório comportamentos que o leigo não tem. Não é sua percepção que é diferente, mas sim seu repertório de comportamentos. Sua percepção não tem nada de diferente. Ele simplesmente reage às circunstâncias, às contingências de reforço, pois tem em seu repertório os comportamentos apropriados para reagir de uma forma diferente da forma como reagiria uma pessoa leiga.

Agora aplique tudo que leu acima em si mesmo. Aplicando você entenderá que autoestima é nada mais nada menos do que o comportamento de estimar o próprio valor. Sua autoestima será elevada dependo da forma como se sente com relação a si mesmo e dependendo da forma como se percebe, ou seja, dependendo da forma como descreve a si mesmo. Mas o que sentimentos com relação a nós mesmos e a forma como nos descrevemos é fruto de nossa história.

Alguns aprenderam ao longo da vida que não têm valor nenhum, pois tendo sido mal avaliados por outras pessoas, tomaram a descrição destas como sendo verdadeiras, ou seja, utilizaram estas descrições como regras para descreverem a própria vida. A questão é que estas descrições podem estar erradas. Quando estão erradas geram autoavaliações disfuncionais. Por sua vez, estas avaliações disfuncionais criam circunstâncias aversivas que fazem as pessoas se sentirem mal. Quando se sentem mal dizem que têm uma baixa autoestima. Como mudar este sentimento? Mudando as contingências de reforço.

Uma terapia pode ajudar a pessoa a mudar as contingências que determinam o comportamento de se avaliar de forma tão negativa. O que importa é a pessoa saber o quanto a sua autoavaliação a incomoda. Se houver incômodos é hora de procurar ajuda, pois este incômodo pode gerar interferências em outros comportamentos, tornando, desta forma, a vida menos produtiva. Uma vida menos produtiva pode se tornar escassa em reforçamento positivo. Por sua vez a escassez de reforçamento positivo pode gerar uma série de outros problemas comportamentais (emocionais).

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domingo, 13 de janeiro de 2013

Democracia brasileira: que democracia?

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

O Brasil é um país que tem como regime político a democracia. Enquanto regime político a democracia se caracteriza pela possibilidade de participação da população na gestão do bem público. Em termos analíticos-comportamentais a democracia cria contingências de reforço que permitem que membros de uma dada sociedade possam exercer contracontrole sobre seus governantes. Ao mesmo tempo aqueles que governam estão sujeitos aos efeitos das legislações que por eles são criadas, ao menos em tese é o que deveria acontecer. Por sua vez estas legislações descrevem contingências de reforço que especificam que tipo de consequências seguirão cada tipo de comportamentos emitidos em espaços públicos. Podem ser consequências reforçadoras ou podem ser consequências punitivas. Na maior parte das vezes elas são punitivas.

Se a democracia cria espaços de participação popular, ou seja, permite o exercício do contracontrole, é de se esperar que esta participação não seja punida pelos governantes, pois a punição poderia suprimir os comportamentos de participação, o que acabaria por descaracterizar a própria democracia, transformando-a em uma espécie de absolutismo disfarçado de regime democrático. E não é que isso é muito comum no Brasil?

Com a popularização das redes sociais, que se transformaram em espaços de intensa participação popular, o controle da circulação das informações acabou fugindo ao poder daqueles que governam. Se estes podem controlar a imprensa local, e fazem isso legalmente através de contratos entre prefeituras e mídias impressas, e por vezes também com mídias televisivas, não podem fazer o mesmo com o espaço da internet e redes sociais. Com estes contratos a mídia impressa noticia aquilo que quem governa quer que seja noticiado. O reforço condicionado dinheiro tem grande poder de controle.

Mas este reforço pouco atinge os comportamentos de quem participa nas redes sociais. Se este é ineficaz, entra em cena o controle aversivo, entra em cena a coerção, ou seja, a punição ou ameaça de punição. Quem está no poder tem acesso privilegiado a espaços e instrumentos que um sujeito comum não tem. Consequentemente pode desfrutar de reforços que são inacessíveis ao restante da população e perder estes reforços não é algo que faça parte dos planos. Perder estes reforços representa a possibilidade voltar à condição de sujeito comum, de sujeito que não pode usar a máquina administrativa para ameaçar ou para estabelecer relações de influências que produzirão inúmeros estímulos reforçadores.

Estas relações de influências são muito comuns na política brasileira. As ciências políticas chamam este tipo de fenômeno de fisiologismo. O fisiologismo consiste na troca de favores, leia-se cargos, entre partidos para a manutenção de apoio político. Partidos trocam cargos para manterem o controle da máquina administrativa e assim aumentarem suas chances de se perpetuarem no poder. No fundo trata-se de uma troca de reforços que acabam por manterem estas práticas culturais, e estas práticas criam contingências que fazem a manutenção de comportamentos de usar o público como se privado fosse. A utilização do público como se privado fosse é chamada de patrimonialismo.

O público acaba sendo tomado como patrimônio particular, uma espécie de volta ao absolutismo, em que uma família ou grupo de pessoas se "agarram ao osso", ou melhor dizendo, se agarram ao poder e nele se mantêm por meio de nomeações em que somente o grupo é beneficiado. Desta prática deriva a nomeação de parentes para cargos públicos importantes. A consequência direta deste tipo de prática é que pessoas que não têm competência técnica acabam ocupando funções que são determinantes na gestão de segmentos importantes do patrimônio público.

Abre-se mão dos critérios técnicos, e no lugar entram os critérios da politicagem, os critérios da troca de favores. Isso acaba provocando indignação. Se a impressa local geralmente está sob controle do poder público, em que lugar a indignação encontra terreno livre para ser manifestar? Se você pensou nas redes sociais, digo-lhe que está correto. Por isso as redes sociais se popularizaram tanto como meio para o exercício do contracontrole, e em muitos lugares elas têm causado um profundo incômodo. Em muitos lugares pessoas têm se unido para formarem grupos que agem como fiscalizadores do poder público. E não é essa a essência da democracia, ou seja, a de criar espaços quer permitam inclusive que a sociedade fiscalize o poder público?

Portanto, em tempos de globalização e popularização da internet e redes sociais é necessário que nossos governantes repensem suas posturas. Aqueles que não se atentarem para o poder da internet podem correr sérios riscos de serem extintos, ou melhor dizendo, correm o risco de terem suas carreiras como políticos extintas. E se depender deste blogueiro que vos fala as redes sociais vão se popularizar cada vez mais como instrumentos para o exercício do contracontrole, algo que as ciências sociais chamam de controle social.

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sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A Difícil Tarefa de Falar de Sentimentos

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Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

Você já percebeu que falar de sentimentos e emoções não é uma tarefa muito fácil? Nós psicólogos vivenciamos isso todos os dias na clínica. Muitos dos nossos clientes querem falar de seus sentimentos, mas as palavras parecem escapar-lhes, e quando alguma palavra é encontrada ela parece não descrever com exatidão aquilo que se sente. No entanto, não é um "privilégio" dos psicólogos poder observar de perto a dificuldade que a maior parte das pessoas têm de falar de seus sentimentos. Aliás, é bom que se diga que os profissionais da psicologia não estão isentos desta dificuldade, afinal de contas nós também somos humanos, e como o resto da humanidade aprendemos a falar de nossos sentimentos com quem não tem acesso ao que estamos sentindo.

Já assinalamos em outros textos que emoções são comportamentos.Tenha acesso a alguns destes textos clicando aqui. O behaviorista não atribui às emoções nenhum status especial. Ele não considera as emoções como os fatores causais daquilo que fazemos. Tanto o que sentimos quanto o que fazemos são comportamentos selecionados (modelados) pelas contingências de reforço que fomos sendo expostos ao longo da vida. Isso não quer dizer que as contingências filogenéticas, aquelas relacionadas à sobrevivência da espécie humana e as contingências culturais não tenham um papel na causação do comportamento emocional.

As contingências filogenéticas selecionaram os comportamentos respondentes que são eliciados quando nos emocionamos. Quando alguém, por exemplo, diz sentir ansiedade, na verdade está relatando algumas transformações fisiológicas que estão se processando no organismo: taquicardia, respiração ofegante, queimação no estômago ou ânsia de vômito, tensão muscular, etc. Estas transformações fisiológicas são os respondentes eliciados quando se sente ansiedade. Isso é apenas parte do comportamento emocional de se sentir ansioso. Outra parte se manifesta através de comportamentos operantes: agitação, fala acelerada, dificuldade de concentração, impaciência, etc.

As transformações fisiológicas foram selecionadas ao longo da evolução das espécies por causa do seu valor de sobrevivência. Imaginemos o caso da ansiedade. Taquicardia e respiração ofegante, por exemplo, ajudam o organismo a entrar num estado de alerta que o prepara para a fuga e contra-ataque. Nos primódios da civilazação humana o Homem disputava alimentos e abrigo com outras espécies, fugir e contra-atacar foram respostas adaptativas selecionadas por contngências filogenéticas. O problema do mundo moderno é que qualquer sinal insignificante de perigo é interpretado como motivo para fugir e contra-atacar, e isso explica porque tantas pessoas têm problemas relacionados com a ansiedade e porque muitas outras vivem explodindo e contra-atacando aquilo que se considera um objeto de temor.

Mesmo os comportamentos de contra-atacar e fugir não são puramente filogenéticos. Há neles um componente operante. Se o contra-ataque minimiza ou elimina os sinais de perigo, acaba por se estabelecer uma contingência de reforçamento negativo. Se a fuga evita danos à integridade física, também se estabelece uma contingência de reforçamento negativo. Mas as respostas de aceleração cardíaca, respiração ofegante, entre outras são puramente filogenéticas, cuja função é colocar o organismo em condições para fuga ou contra-ataque. Neste sentido, podemos dizer que ansiedade enquanto comportamento emocional é um comportamento adaptativo, pois ajudou o homem na luta por alimentos e abrigo.

Mas se a ansiedade como qualquer outro comportamento emocional pode ser um comportamento adaptativo, por que temos padrões emocionais que acabam produzindo problemas, que acabam colocando a integridade do organismo em risco? A resposta está nas contingências de reforço. Se alguém é muito ansioso, pode ser que tenha tido uma história repleta de muitas punições. Sendo assim, vários foram os estímulos que se associaram às punições e por isso se tornaram estímulos aversivos. Então, a pessoa age como se tudo fosse aversivo, como se estivesse prestes a ser punida, por isso precisa manter-se alerta. Uma generalização de estímulos é responsável por este estado de prontidão.

As contingências culturais também têm um papel na causação do comportamento emocional. É dito, por exemplo, que os brasileiros são bastantes expressivos, enquanto que os ingleses são mais frios e introspectivos. Se analisarmos a cultura brasileira encontraremos contingências que favorecem a extroversão, enquanto na Inglaterra encontraremos outras contingências completamente diferentes. Uma análise completa dos comportamentos emocionais também deve levar em consideração estas contingências. Um psicoterapeuta brasileiro atendendo um inglês deve ter o cuidado de não forçar a ocorrência de certos comportamentos emocionais, caso contrário pode criar contingências de controle aversivo que levem o cliente a fugir do tratamento.

Até aqui aprendemos que emoções são comportamentos. Por trás da causação dos comportamentos emocionais estão contingências filogenéticas, contingências de reforço (ontogenéticas) e contingências que envolvem o processo de transmissão da cultura. Resta responder a seguinte pergunta: por que é tão difícil falar de emoções? Lembremos que parte do que ocorre enquanto nos emocionamos são comportamentos respondentes (mudanças fisiológicas). Boa parte destes mudanças geram transformações no interior do organismo, geram estímulos interoceptivos, estímulos que ocorrem no interior do organismo, estímulos que correspondem exatamente aquilo que sentimos quando nos emocionamos.

Estes estímulos são privados, pois só quem tem acesso a eles é aquele que se emociona. Quando descrevemos que estamos sentindo determinada emoção, estamos na verdade descrevendo a ocorrência destes estímulos gerados por comportamentos respondentes. A questão é que aprendemos a descrever tais estímulos, ou descrever nossos estados emocionais com quem  não tem acesso ao que estamos sentindo. Chamamos de comunidade verbal aqueles que nos ensinam tal tarefa. A comunidade verbal é formada por todos os membros que fazem parte dos grupos aos quais frequentamos ao longo da vida: família, escola, grupos sociais, etc.

Se a comunidade verbal não tem acesso ao que sentimos, como ela nos ensina a falar de nossas emoções? Ela faz isso com base em eventos públicos que acompanham nossos estados emocionais. Vamos a um exemplo. Imagine uma criança que ao aprender a dar os seus primeiros passos acaba caindo e ferindo a boca. Imediatamente ela começa a chorar. A mãe presume que ela está sentindo dor e começa a dizer: "oh dó, está doendo bebê? Machucou a boquinha? Fez dodói?" Assim a criança aprende que aquilo que está sendo sentido se chama dor.

Mas não é em todos os estados emocionais que há um evento púbico claro acompanhando um estímulo privado que se presume estar ocorrendo. A comunidade verbal vai sempre inferir a presença de um estímulo privado a partir de eventos públicos correlatos, mas estes últimos nem sempre são assim tão evidentes. Deste fato deriva-se a dificuldade que geralmente temos em falar de emoções, pois aprendemos a relatá-las de modo bastante impreciso, e toda imprecisão decorre do acesso que a comunidade não tem aos estímulos que se originam da ocorrência de comportamentos respondentes.


Este é um dos principais motivos que explicam a dificuldade que todos temos em falar de emoções. Há outros. Emoções que geram estimulação aversiva também vão ser relatadas com dificuldades, pois os estímulos aversivos irão gerar comportamentos que concorrerão com o comportamento de relatar a emoção sentida. Pessoas com pouco treino em habilidades sociais também podem sentir muita dificuldade ao falar de emoções, pois o falar pressupõe um ouvinte (plateia), e a ausência de comportamentos que permitam a socialização transforma as situações sociais em fontes de estímulos aversivos.

Portanto, antes de julgarmos alguém, é bom que nos questionemos se estamos em condições de descrever o que a pessoa está sentindo. Nem sempre os eventos públicos que acompanham os comportamentos emocionais são pistas confiáveis para aquilo que as pessoas estão sentindo. Ao lembrarmos disso evitamos os riscos de chegarmos a conclusões precipitadas a respeito daquilo que as pessoas sentem.

E você, o que achou deste texto? Manifeste sua opinião.

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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Saravá, mangalô três vezes: mandingas e fim de ano

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

Fim de ano é sempre a mesma coisa. A mídia enche a cabeça das pessoas de bobagens. Com todo respeito a crença de cada um, não são um punhado de conchas atiradas sobre uma peneira decorada com colares e outros objetos que vão mudar o seu futuro. Mandinga nenhuma que existe sobre a terra pode alterar o seu futuro. O seu futuro depende de duas coisas: daquilo que você fez no passado e daquilo que anda fazendo no presente.

O que você fez no passado é tão importante quanto aquilo que anda fazendo no presente. O que fez no passado pode ter produzido as tendências comportamentais que você vem apresentando no presente. Então, não tente entender seu presente sem ao menos dar uma olhadinha para o seu passado. O Homem é um ser histórico, portanto, sua história faz dele o que ele é. O que você continua fazendo no presente pode tanto reforçar as tendências comportamentais modeladas no passado, quanto reverter estas tendências, ou pode ainda criar outras.

Sendo assim, olhar para o passado e para o presente é o primeiro passo que deve ser dado para gerar novas tendências comportamentais que se manifestarão no futuro. De certa forma todo mundo sabe disso. Todo mundo sabe que sem entender o passado somos privados de compreender o "porquê" de agirmos assim ou assado no presente, como também sabe que aquilo que se planeja no presente pode alterar os resultados das ações no futuro. Esse é um conhecimento que faz parte do senso comum.

Embora faça parte do senso comum, ninguém conhece os meios adequados de como se pode construir conhecimento sobre o passado, e, sobretudo, como este conhecimento pode ser aplicado para alterar o presente e planejar o futuro. É aí que entre a Ciência do Comportamento com todo o seu arsenal filosófico, teórico e tecnológico. O que a ciência do comportamento tem a nos oferecer é a possibilidade de entermos a nós mesmos, e este conhecimento deve ser o ponto de partida para qualquer tipo de planejamento que queiramos fazer a respeito de nossas vidas.

Inclusive, esta ciência pode nos oferecer a possibilidade de entender porque as pessoas se deixam seduzir por promessas de mandingas, simpatias, advinhações e outras práticas culturais que invadem a mídia nos fins de ano. Se invadem é porque rendem algum ibope, e isso é fato. Mas por que as pessoas são seduzidas tão facilmente a colocarem em prática ações que não têm o menor poder de alterar suas vidas? Que mecanismos de aprendizagem subsiste atrás destas práticas? Destaquemos alguns: imitação, reforçamento acidental, controle de estímulos e coerção.

Imitação. A imitação está na base da aprendizagem de muitos dos comportamentos que fazem parte de nosso repertório total de comportamentos. Desde tenra idade imitamos os adultos, e quando o comportamento imitativo se aproxima do comportamento imitado é seguido de reforços positivos. A aquisição da fala é um bom exemplo. O pai diz "papai". A criança repete "papá". O comportamento se aproximou do comportamento do pai, e por causa disso é reforçado. Com a repetição da cena logo a criança aprende a dizer papai. O mesmo mecanismo é válido para a aquisição de outras palavras e para a formulação de frases mais complexas.

Quem nunca viu uma criança calçando os calçados dos pais ou mesmo vestindo suas roupas? Esse comportamento de imitar os pais é a base para o comportamento de fazer no futuro aquilo que os pais fazem, inclusive é a base para seguir os seus conselhos. Quando não sabemos nos virar em certa situação geralmente imitamos quem sabe. Por exemplo, se um sujeito está em uma danceteria e não sabe dançar, ele arrisca alguns passinhos observando aquilo que as pessoas estão fazendo. Em seguida começa a fazer o mesmo, e se é bem sucedido possivelmente seu comportamento é reforçado.

Com os comportamentos de fazer simpatias, pular ondinhas, ler horóscopo, vestir roupa de determinada cor não é diferente. Se um sujeito como o apresentador Luciano Huck oferece flores para Iemanjá no programa de encerramento do ano, é possível que muitos dos seus fãs façam o mesmo. Os fãs seguem o apresentador na tentativa de obter aquilo que ele tem: carisma, fama, sucesso, dinheiro, etc. Lógico que as pessoas não têm consciência disso, mas acabam agindo por imitação. Podem não imitar exatamento o Huck. Todavia podem acabar imitando alguém mais próximo que disse que seu ano foi bem sucedido porque ofereceu flores para Iemanjá no ano anterior.

Reforçamento acidental. Reforçamento acidental pode acabar modelando comportamentos supersticiosos. Se o menino que ao jogar bolas de gude com os amigos faz "figa" com os dedos todas as vezes que realiza uma jogada, e se algumas das jogadas acabam sendo bem sucedidas, gera-se um comportamento de acreditar que a "figa" foi responsável pelo sucesso. Acidentalmente o comportamente de fazer "figa" foi reforçado. Com o horóscopo não é muito diferente. Ocasionalmente o que se lê no horóscopo dos jornais pode se confirmar na realidade. Mera coincidência. Todavia, o reforço acidental pode modelar a tendência de continuar baseando decisões na leitura do horóscopo. O problema do reforço ocasional é que o comportamento supersticioso é modelado em um esquema de reforçamento intermitente, e sabemos que esquemas de reforçamento intermitente geram comportamentos resistentes à extinção.

Controle de estímulos. O termo controle de estímulos faz referência ao fato de que o comportamento também é controlado pelos estímulos do contexto em que ocorre. Então o comportamento operante é controlado tanto por suas consequências quanto pelo contexto em que ocorre. Os estímulos do contexto aumentam a probabilidade de que o comportamento ocorra. O bombardeamento midiático cria contextos que elevam as chances das pessoas se renderem às mandingas e simpatias, principalmente se estes comportamentos já fizerem parte de seus repertórios. Os programas de TV mostram pessoas que obtiveram sucesso porque consultaram a numerologia, os búzios, as cartas, etc. Mandingas e simpatias são associadas a reforçamento positivo, e isso pode criar ocasiões propícias para que sejam modelados comportamentos supersticiosos.

Coerção. Coerção é uso de punição ou a ameaça de uso de punição. O futuro é sempre algo inigmático, e a ele estão associadas as possibilidades de catástrofes e eventos inesperados. Catástrofes e eventos inesperados são estímulos bastante coercitivos. Se tais estímulos puderem ser minimizados de alguma forma, possivelmente as pessoas se entregarão às práticas que podem minimizá-los, que podem evitá-los ou diminuir seu raio de ação. Jogar búzios, cartas, ler o horóscopo, etc, são tentativas de diminuir a imprevisibilidade do futuro, tornando-o, assim, menos aversivo. Tudo que as pessoas querem acreditar quando se inicia um novo ano é que ele será menos aversivo do que o ano que passou, por isso muitas se entregam a estas práticas já citadas.

As quatro situações citadas podem ajudar-nos a entender os motivos que estão por trás de comportamentos supersticiosos. Mas o futuro não pode ser alterado com mandingas, simpatias ou qualquer outro tipo de prática oculta. Isso não quer dizer que ele não possa ser modificado. Sim, ele pode, desde que haja planejamento. Mas nenhum planejamento terá a chance de obter sucesso se não estiver ancorado em informações críveis sobre o passado e também sobre o presente. É em nossa história que encontramos a oportunidade de conhecer as variáveis que controlam o nosso comportar-se, e é alterando estas variáveis  que modificamos a nossa forma de agir. Qualquer promessa fora destas possibilidades é pura fantasia! Aproveitando a oportunidade, desejo a todos os leitores um feliz 2013!

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quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O Amor e os Seus Mitos

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

Novamente o amor é tema do blog Café com Ciência. O poder do amor, ou melhor dizendo, o poder que o comportamento de amar tem de produzir contextos (estímulos discriminativos) e de gerar estímulos reforçadores que respectivamente produzem disposições para agir de determinada forma, como também reforçam tais disposições, é o motivo pelo qual este sentimento, ou esta forma de se comportar ter sido tão retratada ao longo da história da humanidade em pinturas, poemas, histórias, novelas etc.

O amor exerce um grande fascínio sobre aqueles que amam. E o motivo não é muito difícil de entender. Quem ama se mobiliza para fazer com que o amor se transforme no tema central de sua vida. Se mobiliza porque o amor tem o poder de gerar estímulos reforçadores os mais diversos, inclusive e principalmente estímulos de natureza sexual. Não me refiro ao sexo propriamente dito. Um beijo, é por exemplo, um reforço de natureza sexual, pois deriva seu poder de reforçar da sua capacidade de estimular sensorialmente os lábios, e tal estimulação naturalmente vai provocar (eliciar) comportamentos reflexos (mudanças fisiológicas) descritas como prazer.

Logicamente que o poder do beijo de reforçar não advém apenas da seleção natural, da filogênese. Ele depende também da cultura. Em nossa cultura o beijo é uma espécie de rito de iniciação à vida sexual. Está associado à conquista e ao cortejo. Culturalmente o beijo é uma espécie de objeto de desejo, primeiro passo que sucede a tantos outros que podem levar a obtenção de prazer sexual. Filmes e novelas transformam o beijo em uma grande encenação teatral, e sendo dramatizado de tal forma passa a ser objeto de desejo das massas. Então, as contingências culturais também têm um papel na determinação do poder reforçador de um beijo ou mesmo de qualquer outro gesto de carinho.

Beijos e gestos de carinho são comportamentos através do qual o amor é expressado. Tais comportamentos geram disposições comportamentais no(a) parceiro(a), como também podem reforçar estas disposições. Dito isso, entedemos porque o amor exerce um fascínio tão grande sobre aqueles que amam, ou seja, isso acontece por causa do poder que o amor tem de produzir reforços, reforços que modelam os mais diversos tipos de comportamentos, reforços que derivam sua força da seleção natural e de contingências culturais. Em função disso muito já se disse sobre o amor ao longo da história, aliás, por causa disso muito ainda se diz a respeito do amor. Mas muito do que se diz sobre o amor são mitos e lendas. Gostaria de enumerar pelo menos dois destes mitos, e farei isso através de alguns questionamentos.

Só se ama uma vez? Quem leu o post "Uma Análise Comportamental da Dor de Amor" sabe que essa pergunta não pode ter um "sim" como resposta. O motivo é simples. Emoção é comportamento. O amor é uma emoção, logo é comportamento. Como comportamento ele está sujeito aos efeitos das consequências que produz, quanto do contexto em que ocorre. Em outros dizeres, o comportamento de amar está sujeito a ação das contingências de reforço, como também das contingências da seleção natural e das contingências culturais como já assinalado. Sendo assim, alguém pode deixar de amar uma pessoa, mas isso não quer dizer que ela perca a capacidade de amar, ou seja, isso não quer dizer que ela não pode voltar a amar uma outra vez.

Essa conversa de que só se ama uma vez é mito. Quando um relacionamento termina, quando um amor se acaba, os comportamentos de amar o(a) parceiro(a) entram em extinção. Expliquei esse processo com detalhes no texto "Uma Análise Comportamental da Dor de Amor", texto ao qual já fiz referência. Aconselho que leitor dê uma olhadinha neste texto. O que ocorre, então, é que se deixa de amar o(a) parceiro(a), ou seja, os comportamentos de amar direcionados aquela pessoa entram em extinção. Isso não quer dizer que o repertório total dos comportamentos que compõem a classe de comportamentos de amar sofra uma completa extinção.

A fila anda, e em nova ocasião pode aparecer um parceiro diferente que ofereça reforçadores bastante distintos, e isso é suficiente para que o comportamento de amar esse novo parceiro seja modelado e passe a fazer parte do repertório de comportamentos de amar. O que pode ocorrer é que a pessoa traga marcas do relacionamento anterior que interfiram no novo relacionamento. Em outras palavras, ela pode trazer disposições comportamentais modeladas por outros relacionamentos, e estas disposições acabam ocasionando problemas para o novo relacionamento. Mas isso não ocorre porque a pessoa perdeu sua capacidade de amar, mas sim por causa de eventos que no passado geraram disposições comportamentais com potencial para produzir problemas os mais diversos quando novos relacionamentos são estabelecidos. Sendo assim, consideremos derrubado o primeiro mito a respeito do amor: "só se ama uma vez".

Depois que deixamos de amar uma pessoa, podemos voltar a amá-la? Sim, nós podemos, embora, essa não seja uma tarefa muito fácil, porque quando se deixa de amar geralmente se cria aversão. Aquele que era objeto de amor muitas vezes acaba se transformando em objeto de outros sentimentos como a raiva, ou seja, aquele que era uma potencial fonte de reforços se transforma em uma fonte de estímulos aversivos, provocando repulsa (comportamento de fuga/esquiva). Nem sempre esse é o caso, mas muitas vezes acontece, principalmente quando o relacionamento termina de forma traumática.

Podemos voltar a amar alguém que se deixou de amar, bastando para isso identificar no relacionamento fontes de reforçamento que não foram exploradas. Estas novas fontes de reforçamento podem criar contextos que voltem a suscitar o comportamento de amar, de modo que este comportamento tenha a oportunidade de ser novamente reforçado. Com isso novas interações são criadas entre o casal, e estas novas interações produzem novos reforços. Por sua vez os novos reforços vão fortalecer o laço de amor entre o casal, ou seja, vão fortalecer as disposições de demonstrar amor entre os parceiros.  Fica derrubado, portanto, o segundo mito.

Poderia aqui explorar tantos outros mitos, mas estes dois nos dão uma dimensão do quão complexos são os comportamentos que envolvem as expressões de amor. Mas importante é saber que o amor é comportamento, e que comportamento pode ser modelado. Se pode ser modelado, relações podem ser refeitas. Importante é saber que as respostas para o amor e suas frustrações estão nas contingências de reforço. Uma vez analisadas as contingências podem nos revelar muito sobre os nossos sentimentos, inclusive sobre o amor.

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quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Uma Análise Comportamental da Dor de Amor

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Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

Ahhhh, o amor... Nobre sentimento que inspirou pelos séculos os poetas e artistas. Quantas pinturas não foram feitas para expressar um amor? Quantos poemas não foram escritos por amor? Queria muito nesta postagem tratar deste tema sem recorrer à ciência, pois a ciência parece fria, distante, e aparentemente o que ela teria a dizer sobre o amor? Bem, ela tem muita coisa, principalmente a ciência do comportamento, ciência que tem o Behaviorismo Radical como seu fundamento filosófico.

O amor tem um grande poder. Como estímulo reforçador ele pode modelar os mais diferentes comportamentos. Uma pessoa apaixonada escreve cartas de amor, manda ao longo do dia mensagens de sms para expressar o seu querer, posta no facebook imagens e mensagens para tornar público sua alegria de amar. Ahhh, eu não poderia deixar de citar os "sms's" e o "facebook", pois em pleno século XXI o amor encontra nestes meios as suas formas de expressão... Rs!!! É a modernidade atualizando os meios para se expressar o amor.

Amor é comportamento! Sim, é comportamento. Sei que parece esquisito, mas amor é comportamento emocional sujeito a ação das consequências que produz. Um(a) amante expressa seu amor pela(o) amada(o) através do facebook, orkut (morto ou não?! Rs...), twitter, youtube etc, porque desta forma obtém a atenção e as carícias da(o) parceira(o). Vejam, então, o condicionamento operante de fato operando... O comportamento opera no ambiente modificando-o e é ao mesmo tempo modificado, ou seja, o amado que manifesta seu amor modifica o ambiente ao aumentar a probabilidade de que a amada responda satisfatoriamente com carícias e juras de amor.

O amado faz isso com seus próprios comportamentos, como os já citados: postando no facebook, usando sms, etc. Estes comportamentos geram estímulos que aumentam a probabilidade da amada agir de forma a reforçar o que o amado faz e vice-versa. Assim o amor enquanto comportamento vai sendo fortalecido, de modo que sua frequência de emissão vai aumentando. Mas, como "nem tudo são flores", o amor também enfrenta problemas, e isso os poetas sabem muito bem, tanto que Camões assim descreveu este nobre sentimento (compotamento): "Amor é fogo que arde sem se ver; / É ferida que dói e não se sente; / É dor que desatina sem doer."

O amor "é dor que desatina sem doer". Quem já amou e perdeu um amor sabe o que é isso! A dor da perda de um amor costuma se manifestar por comportamentos respondentes bastante distintos: ansiedade com aquela pontada no coração, o que faz parecer que o coração é o reduto do amor; estômago nauseado; rigidez muscular, etc. Quando se ama alguns comportamentos reflexos ficam sob o controle dos estímulos gerados pelo comportamento da pessoa que se ama. Ao se perder quem se ama, perde-se algo importante, o que produz controle aversivo, ou seja, quem perde um amor diz que a perda dói, e isso acontece porque a perda produz punição (controle aversivo). Punição produz todos estes estados emocionais colaterais, que são na verdade exemplos de comportamentos reflexos.

Mas a perda de um amor também é ocasião para a emissão de muitos comportamentos operantes. Quem já perdeu um amor, provavelmente nos primeiros dias e semanas sentiu a todo instante uma vontade de estar com a(o) amada(o), ouviu músicas que lembravam o amor perdido, ensaiou pegar o telefone várias vezes para ouvir a voz daquele(a) que era a fonte de todo o amor, chorou, falou da pessoa perdida para todo mundo, etc. Essa é uma experiência universal para o fim de todos os amores.

É universal porque o que ocorre quando se perde um amor é que todos os comportamentos que antes eram dirigidos à pessoa amada começam a entrar em extinção. Todo comportamento quando emitido e não reforçado entra em extinção, ou seja, começa a perder sua força até voltar ao que era antes de ser modelado, de ser fortalecido pelos diversos reforços que o seguiram. Mas no início do processo de extinção os comportamentos ao invés de declinarem aumentam de frequência. Por isso no início da perda de um amor se pensa tanto em quem se perdeu, se ensaia ligar para o(a) amado(a) que se foi, são ouvidas músicas que lembram os velhos tempos, etc.

Todavia, a cada ocorrência destes comportamentos, se eles não são reforçados, acabam se enfraquecendo, até desaparecerem. Então, caro leitor, não se assuste se no início da perda de um amor você se ocupa apenas do amor perdido. Não se preocupe, pois cada vez que se engajar nestes comportamentos e eles não forem reforçados, inevitavelmente entrarão em extinção. Ou seja, a dor acaba passando. Lógico que ela passa mais fácil se você se engajar em outros comportamentos que sejam capazes de produzirem reforços que substituam aqueles que eram gerados pelos comportamentos da pessoa amada.

Não necessariamente você precisa entrar numa nova relação imediatamente, pois isso nem sempre ajuda. Quando falo de reforços que possam substituir àqueles gerados pelo amor que foi perdido, me refiro aos reforços que podem surgirem como consequências de você se expor a novas contingências de reforço, contingências que podem ser experimentadas em atividades como lazer, uma boa leitura, um bom filme, um papo com os amigos, uma atividade esportiva, etc. Se expor a novas contingências é o melhor remédio! Tente e depois me diga.

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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O Feudalismo Político Brasileiro

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

A democracia nunca foi um traço marcante da cultura brasileira desde os primóridos da formação de nossa nação, ou seja, a possibilidade do exercício do contracontrole é algo bastante recente na história de nosso país, algo conseguido no início dos anos 90. O que em tese a democracia tem a nos oferecer é a possibilidade de participarmos da gestão pública, ou seja, de exercermos controle sobre aqueles que governam, e isso ocorre através dos mecanismos oficiais que existem para esse fim, e em democracias representativas como a brasileira o voto é o maior de todos estes mecanismos.

O voto não deveria ser e nem é o único meio através do qual a população pode exercer controle sobre quem governa. Cada política pública cria espaços em que a participação na gestão se torna algo possível. Na Assistência Social, por exemplo, existem os conselhos municipais de assistência social, que seguem o modelo da política de saúde onde existem os conselhos de saúde. Através destes conselhos a população pode acompanhar a gestão das políticas, como também propor medidas para que elas atinjam de fato o público ao qual estão destinadas. Em outras palavras, estes conselhos tornam possível o exercício do contracontrole, uma contingência possível em governos democráticos.

Todavia, na prática tais conselhos encontram inúmeras dificuldades para funcionarem, que vão desde o despreparo de quem deles participa, despreparo que se faz notar pelo desconhecimento da política sobre qual o conselho deve exercer contracontrole, até o cerceamento de informações que dificultam o funcionamento destes que deveriam ser espaços privilegiados onde a democracia participativa tem possibilidade de ser fomentada. Este cerceamento se traduz pelo fornecimento de informações incompletas aos conselhos pelos órgãos públicos. Quando estas informações são completas chegam aos conselhos com tanto atraso que a discussão sobre as mesmas ficam prejudicadas, e por causa disso muitas deliberações são tomadas sob pressão.

Mas os conselhos também costumam serem utilizados pelos membros que deles fazem parte para inviabilizar iniciativas que poderiam produzir benefícios sociais em larga escala, e agem assim porque utilizam o conselho em benefício próprio, seja para conseguirem visibilidade social que pode se traduzir em votos numa possível eleição futura ou em cargos na administração pública. Isso faz com que o fim para qual foi criado o conselho seja completamente desvirtuado, ou seja, ao invés de criarem contingências para o exercício de um efetivo contracontrole, se transformam em meios para obtenção de benefícios pessoais ou em vitrines para oposições políticas que muitas vezes mais inviabilizam do que promovem a efetividade de iniciativas tomadas pela administração pública.

Os conselhos acabam se transformando em feudos, e alguns membros que deles participam agem como vassalos que ora trocam seu trabalho por proteção e um lugar ao sol e ora tentam usurpar o poder do senhor feudal. Estas relações de vassalagem que transformam conselhos e órgãos públicos em feudos, acabam por criar contingências em que poucos são beneficiados. É a utilização da administração pública para obtenção de benefícios pessoais. Quem perde com isso é toda a sociedade, pois enquanto se gasta tempo utilizando órgãos públicos para obtenção de benefícios sociais, acaba-se desperdiçando recursos públicos que poderiam ser investidos em serviços de qualidade.

Com tudo isso o voto enquanto meio para exercício de contracontrole acaba sendo excessivamente valorizado, a ponto de muitos pensarem que ele é o único recurso que a sociedade dispõe para influenciar a conduta de seus governantes. Dada a importância que se atribui ao voto, tudo se faz para poder conquistá-lo. Milhões são investidos em campanhas que fazem o uso dos recursos do marketing e propaganda para que eleitores sejam convencidos, e geralmente eles são. Logicamente que aqueles que financiam tais propagandas mais tarde cobram os seus favores. A estes são reservados cargos na administração pública ou são promovidas ações que os beneficiem.

Todas estas ações são uma forma de garantir que o feudo será conquistado e mantido durante quatro anos, e assim a festa da democracia vai fortalecendo os laços de vassalagem entre administração pública e privada, bem como os laços entre coligações que se formam com o objetivo de se apoderarem do castelo do grande senhor, e aqui o castelo é o prédio da prefeitura com todas as suas repartições. Os secretários escolhidos a partir de alianças forjadas entre partidos que se declaravam como opositores, são os senhores feudais submetidos à autoridade do grande rei, e aqui fica difícil definir se o rei é encarnado na figura do prefeito ou daqueles que financiam sua gestão.

Ficam para escanteio os critérios técnicos. Valorizam-se as alianças, por assim dizer os critérios politicos, o que acaba inviabilizando uma gestão mais técnica das políticas públicas, pois uma gestão técnica pode enfraquecer os laços de vassalagem e levar à dissolução do feudo. Então, muitas são as contingências por trás da democracia brasileira. Nossa democracia não é formada apenas pela contingência criada pelo voto. Há muitos reforços que vão além do voto e estes precisam ser considerados se quisermos apreender toda a riqueza de detalhes que compõem o quadro político brasileiro, pois estes reforços controlam os comportamentos dos gestores de políticas públicas, e por sua vez os comportamentos dos gestores criam contingências que afetam toda a coletividade.

Fica claro, portanto, que a democracia "pura", aquela em que há espaços para participação popular ainda não existe totalmente em nossa cultura, pois tais espaços estão submetidos ao interesse da iniciativa privada ou estão sob a tutela de quem usa a administração pública para a produção de benefícios individuais. Não se trata de uma análise pessimista, e esta nem pode ser generalizada a toda administração pública em qualquer um de seus níveis. Mas via de regra, encontraremos circunstâncias muito parecidas com as que foram esboçadas neste texto em muitos recantos deste nosso imenso país.

Nossa democracia precisa ser aprimorada se não quisermos estar constantemente sobre a ditadura burra da maioria que é facilmente manipulada por quem está no poder, e estes usam os mais diferentes recursos para conseguirem tal intento. Temos algumas alternativas para reversão deste quadro: o privilégio de critérios técnicos, critérios que sejam capazes de provar que este ou aquele curso de ação tem maior capacidade de produzir resultados; e eliminação daquelas contingências que interferem com o pleno exercício do contracontrole e que foram acima descritas.

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sábado, 25 de agosto de 2012

"Eu me amo, eu me amo, não posso mais viver sem mim": narcisismo, ciberespaço e capitalismo

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

Caetano Veloso em tom poético cantou que "Narciso acha feio tudo que não é espelho". O Mito de Narciso é uma história que nos remete à mitologia grega, uma história que fala sobre um jovem que ao se deparar com sua imagem na  lâmina d'água de um lago apaixona-se por si mesmo. O mito é utilizado para fazer referência ao apego que muitas pessoas têm a si mesmas. Estas pessoas são geralmente chamadas de narcisistas ou até mesmo de egocêntricas.

Narcisismo e egocentrismo, dois termos de grande difusão social. Esta difusão se deve à Psicanálise, que se apropriando do mito de Narciso utilizou-o para explicar a dificuldade que muitas pessoas têm para adiarem suas satisfações, sendo portanto guiadas por um sentimento de urgência. Desta apropriação surgiu o termo narcisismo, que de acordo com a Psicanálise trata-se de uma fixação que ocorre nos primeiros estágios do desenvolvimento humano.

Ainda de acordo com a Psicanálise, nos primeiros estágios do desenvolvimento somos guiados pela urgência em satisfazer nossas necessidades. A criança chora e a mãe dá-lhe o peito. A criança resmunga e a mãe a livra do incômodo das fraldas. A satisfação quase sempre é imediata. Disto podem resultarem registros mentais que levam a busca de satisfação imediata, e no futuro a pessoa pode se tornar um adulto que toma a si mesmo como a medida de todas as coisas, ou seja, que coloca o seu "eu" (ego) como centro do universo.

Ego é outro termo psicanalítico. Quase um sinônimo de "eu" o ego seria a estrutura mental responsável por negociar com o Id (inconsciente) quando as satisfações de nossos desejos ocorrerão. Se por um lado o ego é regido pelo princípio de realidade, é dominado pela razão, por outro lado o id é regido pelo princípio do prazer, buscando a todo instante a satisfação de desejos reprimidos. Um ego frágil vai ceder aos impulsos do id, tendo, portanto, dificuldades em adiar a satisfação dos desejos e de lidar com frustrações. Deriva desta dificuldade o egocentrismo. Daí nota-se a aproximação entre os conceitos de narcisismo e egocentrismo.

Deixando de lado toda a mitologia psicanalítica, pois a explicação psicanalítica é tão mítica quanto a mitologia grega, fiquemos apenas com aquilo que se descreve como sendo narcisismo: dificuldades em adiar a satisfação e colocar-se como centro do universo. Há que se esclarecer as contingências de reforço que podem ser responsáveis pelos comportamentos agrupados sob o rótulo de narcisismo, para em seguida compreendermos como o modo de produção capitalista e também o mundo do ciberespaço têm modelado pessoas com dificuldades em adiarem suas satisfações, pessoas que colocam a busca do prazer como o centro de suas vidas.

A dificuldade em lidar com frustrações, em adiar o prazer e buscá-lo incenssantemente a ponto de sacrificar aspectos importantes da vida, como, por exemplo, a vida social, tem a ver com o modo como em nossa história as consequências foram seguindo nossos comportamentos e nos tornando predispostos a intolerância, ou seja, nos tornando sensíveis ao adiamento de nossas satisfações, de modo que diante de frustrações agimos quase sempre com ataques emocionais.

Esta sensibilidade ou propensão à intolerância quase sempre é produto de esquemas de reforçamento contínuo. Neste tipo de esquema o reforço segue o comportamento praticamente todas as vezes que ele é emitido. Este tipo de esquema costuma estar presente em histórias de pessoas "mimadas", de pessoas que tiveram que se esforçar muito pouco para obterem a satisfação de suas necessidades e desejos, pois os pais ou outros membros da família quase sempre proviam estas satisfações ao menor sinal de alteração emocional.

É sabido que quanto mais imediato um reforço ocorre depois de  um comportamento, maior a chance deste comportamento ser fortalecido. Então, há uma relação entre a imediaticidade da consequência e a força do comportamento. Pessoas que tiveram satisfações imediatas proporcionadas pelo meio familiar, e se estas satisfações eram imediatas às queixas, às manifestações de insatisfação, acabam se tornando intolerantes às frutrações, ou seja, se tornam incapazes de adiarem os seus prazeres, agindo quase sempre por um senso de imediatismo. Portanto, a intolerância como padrão comportamental pode ter relação com o esquema de reforçamento e com a imediaticidade com a qual os reforços foram apresentandos ao longo da história de modelagem de certos comportamentos.

Sendo assim, pessoas podem se tornarem reféns das contingências de reforço, ou seja, da forma como os reforços são apresentados, se tornando imediatistas e incapazes de adiarem a satisfação de seus desejos e necessidades. São modeladas não somente para serem intolerantes às frustrações, como também para buscarem a satisfação imediata. Estas pessoas se tornam presas fáceis do ciberespaço, espaço em que a satisfação pode ser obtida apenas com um clique. A satifação não obtida na realidade pode ser alcançada através do ciberespaço.

No ciberespaço tudo parece ser mais fácil. As amizades são virtuais, sendo assim, os aborrecimentos podem ser evitados bloqueando ou excluindo alguém da rede de contatos. O prazer pode ser buscado em chats e redes sociais. Até mesmo pode se obter reforços sexuais por meio do ciberespaço. Há inúmeros chats que oferecem sexo virtual por meio do uso de uma webcam. Com uma webcam e um computador com acesso a internet pode se ampliar as possibilidades de obtenção de reforços.

Talvez seja hora para parar e pensar os efeitos da cultura digital sobre o comportamento das pessoas. Essa cultura não criaria circunstâncias favoráveis para a modelagem de comportamentos narcisistas? Essa cultura não favorece o fechamento sobre si mesmo de modo que as pessoas passem a entenderem que se bastam a si mesmas? Essa cultura não acaba por favorecer o individualismo? Quais são os efeitos da obtenção tão facilitada de reforços com apenas um clique?

Se na vida real os reforços podem ser adiados por causa de uma série de circunstâncias, no ciberespaço eles são facilmente obtidos. Mas que tipos de comportamentos estes reforços estão reforçando? Comportamentos de não fazer nada, ou de se empenhar em atividades que concorrem com outras mais produtivas. Não por acaso muitas empresas bloqueiam o acesso a chats e redes sociais, pois o comportamento de navegar em tais redes e chats concorre com o comportamento de trabalhar, o que afeta a produtividade e acarreta prejuízos. 

Seria exagero conjecutar se o mundo digital não estaria contribuindo para a criação de uma cultura do imediatismo? Creio que não. E talvez ele esteja apenas fortalecendo contingências que já operavam no mundo antes de sua existência, contingências que fazem parte de um mundo capitalista "em que tempo é dinheiro", um mundo do "just in time", um mundo regido pela urgência em produzir, pois existe de outra parte a urgência em consumir, um mundo regido pela produção versus consumo.

Se é preciso produzir com urgência, pois existe a necessidade urgente de se consumir o que se produz, cria-se um círculo vicioso em que o consumo é sinônimo de satisfação que não pode ser adiada, em que o consumo é realizado sem que se pense nas consequências, sem que haja consciência das contingências que o determinam. Desta forma o consumo é realizado sem se questionar sobre o que está sendo consumido, pois o que importa é consumir, o que importa é obter prazer.

O produto deste ciclo entorpecedor é a construção de pessoas cada vez menos conscientes dos determinantes de seus comportamentos, ou seja, pessoas que são incapazes de assumirem um posicionamento crítico com relação ao seu modo de vida e sobre o mundo em que vivem, pessoas inseridas numa teia de consumo em que elas mesmas são um produto a venda em stands reais e virtuais. O não pensar nas consequências produz pessoas alienadas, pessoas enamoradas pelo seu prazer como Narciso por sua imagem refletida no espelho d'água, pessoas que podem ser descritas com o refrão da música do Ultraje a Rigor: "eu me amo, eu me amo, não posso mais viver sem mim".


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sábado, 18 de agosto de 2012

Relação Terapêutica e Calor Humano

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Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

Muitas visões deturpadas orbitam em torno do tema psicoterapia, seja porque não existe uma única forma de conduzir uma "terapia do psicológico", e isso se dá em função da existência de diferentes perspectivas teóricas dentro da Psicologia, seja porque o modelo mais tradicional de psicoterapia mantém com o modelo médico uma relação de proximidade. Neste modelo há entre médico e paciente uma relação de distanciamento, e o paciente submete seu adoecimento ao saber quase onipotente do médico.

Logicamente que este modelo está em falência mesmo dentro da medicina, pois muito se fala em humanização do atendimento, humanização capaz de produzir circunstâncias que aumentam as chances do paciente aderir ao tratamento. Sendo assim, fica patente a importância do estabelecimento de uma relação profissional em que a expressão das emoções acaba se transformando em reforços que fortalecem os comportamentos de colaboração por parte do paciente.

No princípio da clínica psicoterápica, e a Psicologia deve sua inserção na clínica à Psicanálise, o psicoterapeuta se ausenta da relação para dar lugar à palavra. Vem daí o uso do famoso divã, uma espécie de sofá em que o paciente se deita e fala de suas emoções livremente. O psicoterapeuta para deixar que as emoções fluam naturalmente assume um lugar atrás do divã, pois o principal ator neste momento é a palavra, e é ela que levará a elucidação dos sentidos ocultos atrás de cada expressão emocional, dos sentidos que levariam aos labirintos de um suposto "inconsciente".

É típico deste tipo de condução do processo psicoterápico a "apatia" emocional do psicoterapeuta, o que colabora para que a relação terapêutica se torne em algo desprovido de afetividade. Mas a palavra pode continuar tendo o seu lugar de destaque sem que para isso seja sacrificada a relação terapêutica. O divã não é uma regra, e talvez seja muito mais uma exceção, pois tudo que se espera numa psicoterapia é acolhimento, acolhimento que gera a disposição para que o portador do sofrimento fale daquilo que lhe traz desconforto.

Ninguém busca a psicoterapia para dizer que está feliz. Ninguém pagaria um profissional para dizer: "olha, minha vida está ótima, e foi muito bom compartilhar isso com você!" Busca-se a psicoterapia no intuito de se conseguir produzir alterações naquelas circunstâncias geradoras de sofrimento. Se o sofrimento estabelece as circunstâncias favoráveis para a busca de ajuda profissional, ele pode ser também o motivo para que alguém desista de ser ajudado, desde que não se sinta devidamente acolhido, o que transforma a relação em algo bastante aversivo.

Estímulos aversivos geram comportamento de fuga. Desistir da ajuda é fugir, e a fuga pode tanto ser motivada pela aversividade da relação terapêutica, quanto pela aversividade do próprio sofrimento que precisa ser narrado, e ao ser narrado novos estímulos aversivos são gerados, e por sua vez estes estímulos aumentam a probabilidade de comportamentos de fuga. Depreende-se daí a ênfase numa relação que promova acolhimento, o que significa que o profissional pode e deve ser empático, pode e deve demonstrar compaixão, entendendo compaixão como um esforço em se colocar no lugar daquele que sofre.

Outro aspecto importante da relação que se estabelece entre profissional e cliente é a reciprocidade. Isso significa que expressões emocionais podem dar um feedback sobre o tipo de situação relacionada ao que é sentido tanto pelo cliente quanto pelo terapeuta. A relação terapêutica não é diferente de outros tipos de relações vividas fora do âmbito do setting clínico. Sendo assim, quanto mais natural for a relação terapêutica, mais o ambiente terapêutico vai imitar o ambiente do cliente, favorecendo, desta forma, a emissão de comportamentos clinicamente relevantes, de comportamentos que só poderiam ser observados em ambiente natural.

Se no seu ambiente natural o cliente experimenta emoções em suas relações, por que não haveria de experimentá-las na relação terapêutica? Por que a relação terapêutica não pode favorecer a ocorrência de comportamentos emocionais que ocorrem em ambiente natural? Ela não só pode como deve favorer a ocorrência destes tipos de comportamentos, o que acaba gerando informações valiosas sobre as contingências de reforço presentes na vida do cliente.

Os sentimentos do terapeuta não precisam ser ocultados do cliente, pois assim ele poderá se conscientizar do efeito que geralmente os seus comportamentos têm sobre as pessoas que fazem parte do seu convívio. Portanto, a relação terapêutica é um espaço de manifestação de calor humano, pois ela não se difere de outros tipos de relações, a não ser pelo fato de ser profissional, tendo assim o propósito muito claro de promover o reestabelecimento da parte que sofre.

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sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Os Sintomas da Vida Moderna


Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

Não sei se acontece só comigo ou se com você leitor essa é também uma prática recorrente. Refiro-me as queixas que têm como foco principal a carência. Tenho visto muitas pessoas se queixarem de se sentirem carentes e sozinhas. Fico imaginando o quanto estas queixas podem estar relacionadas ao modo de vida imposto pelos tempos modernos em que vivemos.

Uma coisa é fato: desde que o Homem é Homem que ele propavelmente sente carência. A carência não é um sentimento exclusivo dos tempos modernos, e seria muito grosseiro fazer tal afirmação. No entanto, fico aqui a conjecturar o quanto a modernidade com todas suas tecnologias que prometem facilitar a comunicação , que promentem promover a socialização, têm de fato cumprido com o esperado. Também não é a tecnologia a culpada, mas certamente o uso que dela se faz acarreta em diversos impactos sobre os seus usuários.

O isolamento e/ou o enclausuramento digital, algo que era inimaginável há algumas décadas, tem se tornado cada vez mais comum. Pessoas gastam horas de suas vidas na frente do computador. E parte significativa destas horas na frente do computador são gastas com as redes sociais. O quão social são de fato as redes sociais? Se a pessoa que faz uso das redes sociais já era alguém que tinha vida social, certamente estas redes vão produzir um acréscimo, ou seja, serão apenas mais uma alternativa a ser usada para expansão dos contatos sociais.

Por outro lado, se a pessoa tem um histórico de dificuldades no estabelecimento de contatos sociais, as redes sociais podem funcionarem como uma fuga. Esta fuga pode provocar isolamento social, isolamento social acarreta em perda de importantes estímulos reforçadores, com isso surge o sentimento de carência. Contudo, é incrível que mesmo os mais sociáveis se queixam de carência. Então vamos tentar entender o que é a carência.

Não precisa dizer que a carência é um sentimento, e geralmente este se manifesta por meio de uma sensação de vazio, de uma sensação de que está faltando alguma coisa. De fato falta alguma coisa quando se sente carência, pois a carência enquanto sentimento é produto de uma operação comportamental chamada de privação. Mas privação de que? Privação de estímulos reforçadores, geralmente estímulos de origem social.

Privação e modernidade, qual a relação entre ambos? A vida moderna nos impõe um alto padrão de competitividade, aliás a competitividade é a marca padrão do sistema de produção capitalista, o que exige de todos nós um alto ciclo de atividades, ou seja, para que possamos competir e sobreviver no mercado de trabalho e assim sermos capazes de fazer a manutenção de nossos padrões de vida, temos que inevitavelmente nos debruçarmos sobre o trabalho, temos que literalmente correr atrás do ganha pão.

Com isso acaba sobrando muito pouco tempo para o lazer, e o lazer mais barato e menos custoso de ser colocado em prática é aquele ofertado pelas redes sociais. A correria da vida moderna priva-nos de muitos reforçadores importantes que muitas vezes tentamos buscar nas redes sociais. O perigo é que os contatos sociais reais sejam substituídos pelos contatos sociais virtuais. Na frente do computador e trancados dentro de nossas casas sentimo-nos muito mais seguros.

A segurança do lar fornece-nos a possibilidade de evitarmos aborrecimentos, frustrações, pois a vida real, aquela em que não podemos simplesmente bloquear ou excluir a pessoa como fazemos nas redes sociais quando nos sentimos aborrecidos, é cheia de desafios. E estes desafios quando superados fortalecem nossas capacidades de superação de obstáculos, de gestão de conflitos, de tolerância a frustrações etc. A vida real presentea-nos com imprevistos que nos dão as chances de ampliarmos as formas com as quais podemos operar no mundo, de modificarmos as nossas formas de existir, de nos tornarmos pessoas mais flexíveis e talvez mais amáveis, ou ao menos mais tolerantes.

Já as redes sociais nos oferecem a possibilidade de excluirmos aborrecimentos com apenas um clique. O preço que se paga para se livrar de aborrecimentos com um clique é o de ser aplacado pela sensação de carência. A carência não é o único sintoma da vida moderna. Um outro notável sintoma é a intolerância. As pessoas estão cada vez mais intolerantes, cada vez mais incapazes de resistirem a frustrações, não sabem lidar com imprevistos, não sabem consertar o que estragou, pois é mais fácil comprar uma mercadoria nova. As pessoas estão acostumadas às coisas prontas. É muito mais fácil chegar num restaurante e já encontrar a comida pronta do que se dar ao trabalho de cozinhar.

Não sabendo fazer e se acostumando a adquirir pronto, as pessoas vão sendo modeladas para se tornarem imediatistas. Imediatismo, outro sinal dos tempos modernos. Se alguém liga para o celular do outro e cai na caixa postal isso se transforma em um inferno existencial (e aqui a rima não foi proposital... rsrsrs!), pois o imediatismo impede a pessoa de entender que nem sempre tudo que se quer de fato se consegue alcançar no momento em que se deseja. Há sonhos que precisam ser adiados, pois requerem planejamento, mas planejamento pode significar atraso na obtenção de certos reforços, algo que muitos não suportam, pois tendo sido modelados pelo "frenezi" da vida moderna querem resultados imediatos. Todavia, nem tudo pode ser obtido com a imediaticidade com o qual se deseja.

Por outro lado o planejamento pode aumentar as chances de que no futuro os reforços que se deseja obter sejam de fato obtidos. É o imediatismo versus os resultados a longo prazo, ou numa linguagem um pouco mais técnica, são as contingências imediatas versus as contingências postergadas. O efeito das contingências imediatas são muito mais visíveis, muito mais paupáveis. Desta maneira estas contingências podem se transformarem em armadilhas que fazem com que as pessoas que são expostas a elas se tornem reféns de um estilo de vida que só será modificado quando as próprias contingências forem modificadas.

Fica a pergunta: que mundo estamos contruindo para a humanidade? Podemos introduzir modificações nas contingências de reforço presentes neste mundo, de modo que as pessoas sejam menos reféns de estilos de vida que escravizam e se tornem portanto mais felizes? Se alguém tiver alguma sugestão que opine!


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