sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Vontade: um exemplo de explicação fictícia para o comportar-se

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

A professora perguntou ao Joãozinho: "Por que você bateu no Pedrinho?". Joãozinho respondeu: "porque me deu vontade". Fica difícil conjecturar sobre as causas do comportamento de Joãozinho apenas com a resposta fornecida por ele. Deveríamos ficar satisfeitos com a resposta, afinal o ser humano é um ser de vontades, um ser que age a partir daquilo que sente. Mas, as coisas não são bem assim, e em outros textos já tivemos a oportunidade de analisar que emoções não são causas de comportamentos. Emoções são também comportamentos, e antes de explicarem qualquer coisa, elas também precisam ser explicadas à luz das contingências de reforço. Para entender um pouco mais sobre as emoções clique aqui.

Supondo que a professora tivesse a oportunidade de observar o comportamento de Joãozinho, algumas pistas poderiam surgir e fornecer indicações dos motivos que levaram-no a agredir Pedrinho. Talvez Pedrinho tenha arrancado das mãos de Joãozinho um brinquedo. Então, alguém poderia dizer: "Joãozinho agiu com base em um impulso de agressividade". A explicação ainda não seria suficiente, pois além de explicar o impulso, teríamos também que explicar como este é acionado, e por sua vez restaria esclarecer como ele age provocando comportamentos agressivos, ou seja, como se transformaria no fim das contas em um comportamento que tem como meta a agressão de outrem. O impulso não fornece uma saída mais interessante do que a explicação que passa pelos estados emocionais agrupados sobre o termo "vontade".

"Joãozinho agiu com agressividade porque perdeu o brinquedo". A explicação ainda não é suficiente, mas já fornece pistas mais concretas a respeito do comportamento agressivo de Joãozinho. Perder o brinquedo significa a suspensão de um reforço positivo importante. Se for possível observar os comportamentos de Joãozinho em situações semelhantes, situações de perda de reforçamento positivo, e isso nos levar a constatar que ele age agressivamente na maior parte das vezes, teríamos dados que permitiriam conjecturas sobre a capacidade de lidar com frustrações de nosso jovenzinho.  Incapacidade de lidar com frustrações pode significar uma história de vida em que os comportamentos de Joãozinho quase sempre eram reforçados em esquema de reforçamento contínuo. Joãozinho não foi treinado para aquelas situações em que o reforço era atrasado com relação ao comportamento reforçado.

Se no passado quando Joãozinho agrediu seus pares ele obteve algum reforçamento, aprendeu, assim, que o comportamento de agredir é uma potencial fonte geradora de reforços. Onde fica a vontade de Joãozinho em agredir? Ela se reduz aos estados emocionais sentidos quando Joãozinho enfrenta situações de frustrações. Tanto o comportamento de agredir quanto o que é sentido quando se é frustrado têm relação com aquilo que está ocorrendo no ambiente, e o que está ocorrendo no ambiente presente tem relação com o que ocorreu no passado quando houve a exposição a certas contingências de reforço.

Todo o raciocínio construído até aqui poderia ser objetado, e os mais obtusos diriam que há uma intencionalidade no comportamento de Joãozinho, pois ele é dirigido para um alvo, neste caso Pedrinho. O comportamento não pode ser causado por aquilo que não aconteceu. Explico-me. Eventos futuros não podem ter qualquer efeito sobre eventos presentes, pois por definição o futuro ainda não aconteceu. Qualquer dicionário que o leitor consultar vai definir vontade como a capacidade da pessoa agir com uma intencionalidade definida. Neste sentido, a vontade dá ao comportamento uma direção bastante definida, como se este fosse uma flecha atirada contra um alvo. No entanto, a meta de atingir o alvo não é a explicação para o comportamento de voar da flecha. A meta enquanto um evento futuro não pode causar um evento presente.

Se a flecha voa até o alvo é porque houve quem a disparasse. Houve um evento no presente que permitiu o lançamento da flecha, neste caso o arqueiro com suas habilidades de atirar. Estas habilidades foram modeladas por exposições a contingências de reforço no passado. No passado essa exposição permitiu que se estabelecesse relações de dependência entre eventos comportamentais e eventos ambientais. Os eventos comportamentais seriam os comportamentos de praticar tiro ao alvo. Os ambientais seriam as instruções sobre como atirar e as consequências proporcionadas pelo seguimento das mesmas.

Normalmente o comportamento dotado de intencionalidade é chamado de voluntário. O termo só faz obscurecer as variáveis envolvidas na determinação do comportar-se, pois a rigor não existem comportamentos voluntários, ou seja, comportamentos livres de determinação, produtos explícitos do livre arbítrio. Isso não quer dizer que não sejamos capazes de escolhermos entre alternativas diferentes. Sim, nós somos, mas, mesmo o comportamento de escolher não está livre de determinação.

Vontades e impulsos pouco explicam. Vontade é um estado emocional, uma tendência para agir de uma determinada forma. Mas, tanto o que é sentido como emoção quanto a tendência em agir de uma determinada maneira são produtos das contingências de reforço. Alguém que diz que está com vontade de comer chocolates, está dizendo que chocolate é um reforço positivo. Está também dizendo que o chocolate enquanto reforço positivo proporciona estados corporais agradáveis (emoções). Mas, sobretudo, a pessoa está sinalizando que não come chocolate há algum tempo, portanto, está privada do reforço chocolate, o que aumenta a probabilidade de sair em busca da obtenção deste reforço.

Contudo, a ideia de comer chocolate não surge no vácuo. Houveram contingências de reforço que aumentaram a probabilidade de ocorrência desta. A pessoa ouviu alguém falar sobre chocolate. Viu na TV um comercial sobre chocolates. Talvez a páscoa esteja próxima, e ela sempre compra ovos de chocolate nesta ocasião. Ou quem sabe seja um sábado, e nos sábados ela come chocolate como sobremesa após o almoço, de modo que opera sobre o seu comportamento um esquema de reforçamento em intervalo fixo. Enfim, muitas são as variáveis que podem explicar a vontade de comer chocolate. Antes de ser uma explicação, a vontade é um produto a ser explicado, fruto de incontáveis operações comportamentais.

Portanto, vontade é mais um exemplo de explicação fictícia para o comportar-se. O termo no máximo pode indicar o tipo de controle que está operando sobre o comportamento que se supõe ser um produto da vontade, mas mesmo assim precisa ser contextualizado de modo que se identifique que condições foram responsáveis pelo aparecimento daquilo que se sente. Não se trata de desprezar o que é sentido, afinal, o que se sente, fornece pistas sobre as contingências de reforço responsáveis tanto pelo sentir quanto pelo agir. Todavia, sempre é bom salientar que o agir nunca é um produto do sentir.


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quinta-feira, 29 de agosto de 2013

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Lei da Atração e Comportamento Encoberto

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

Dizem por aí que basta pensar positivo para que tudo ao nosso entorno se transforme. Será? A literatura de autoajuda chama esse fenômeno de "lei da atração". Funciona mais ou menos assim: o pensamento positivo agiria como um imã capaz de atrair a ocorrência de eventos positivos. Da mesma forma o pensamento negativo atrairia a ocorrência de eventos negativos. É como se os pensamentos tivessem propriedades magnéticas e por isso atraíssem a ocorrência de fenômenos com polaridades similares.

No entanto, esse paralelo com a física não pode ser levado muito longe. Primeiro porque os pensamentos não possuem propriedades magnéticas. Quando pensamos até ocorre no córtex mudanças neuroquímicas que produzem impulsos elétricos, e estes impulsos se fazem por meio do rearranjo de elétrons, o que acaba criando um pequeno campo magnético, mas nada suficiente para atrair qualquer objeto metálico, muito menos a ocorrência de eventos positivos ou negativos, se é que os termos positivo e negativo querem dizer alguma coisa. No máximo eles fazem referência ao tipo de controle que está operando sobre o comportamento, indicando se este está sendo submetido a controle aversivo ou reforçamento positivo. Se fosse assim, todos seríamos como o Magneto, inimigo número um do Professor Charles Xavier dos X-Men. Viveríamos, portanto, a atrair ou repelir metais.

O pensamento é comportamento. O pensamento é um evento privado. O Behaviorismo Radical não se furta a explicar os eventos privados. O pensamento é chamado de comportamento encoberto. O termo encoberto faz referência ao fato de que este comportamento ocorre num num nível que só pode ser acessado por quem se comporta. Pensamento não é causa de comportamento. Ele até pode ser um elo numa cadeia de comportamentos, produzindo estímulos discriminativos que aumentam a probabilidade de ocorrência de comportamentos públicos. Eis aqui uma explicação plausível para a "Lei da Atração". Para entender o que são estímulos discriminativos e como eles agem, é aconselhável que o leitor leia o texto "Condicionamento operante: definição e aplicações". 

Quando alguém pensa positivamente, este comportamento encoberto pode alterar estímulos que aumentam a probabilidade de ocorrência de comportamentos públicos. Uma pessoa que pensa que vai ganhar na loteria, até pode vir a ganhar na loteria, mas não porque pensou que ganharia e o pensamento se concretizou. Ao pensar que iria ganhar na loteria, tal comportamento encoberto gerou estímulos que aumentaram a probabilidade de ocorrência dos comportamentos de apostar. Os comportamentos de apostar acabam produzindo chances reais de se ganhar na loteria. Alguém pode pensar que vai se tornar um profissional excepcional. Este pensamento aumenta as chances da pessoa se comportar de modo a se tornar um profissional excepcional.

Vejam, então, que o que muda o mundo são comportamentos. É o que aprendemos com a definição de comportamento operante, um comportamento que opera no mundo modificando-o, e por sua vez também é modificado pelas alterações que produz. São ações que mudam o mundo ao nosso entorno. Mas, muitas vezes agimos sem que tenhamos consciência de que estamos agindo de determinada forma e quais são as variáveis relacionadas às maneiras como nos comportamos. Essa inconsciência a respeito do que se faz, do como se faz e do porque se faz, acaba gerando a impressão de que muitos eventos estão relacionados ao que pensamos. Mas não é o pensamento que altera o mundo. Ele pode até criar as condições para que certos comportamentos sejam emitidos. Todavia, são os comportamentos que alteram o mundo em que vivemos e por sua vez estas alterações acabam nos modificando sem que muitas vezes tenhamos a consciência de que as mudanças estão acontecendo.

Como qualquer outro comportamento, o pensamento também está sujeito às ações de suas consequências. Da mesma forma, ele também está sujeito às ações dos contextos em que ocorre. Pensamentos são comportamentos que foram aprendidos publicamente. Posso imaginar que estou dirigindo o meu carro. Consigo visualizar que estou segurando o volante, virando a chave, posicionando a marcha, alterando as posições dos pedais etc. Posso até sentir o carro se deslocando. Mas tudo isso é possível porque o comportamento de dirigir um veículo foi aprendido depois que fui exposto a contingências de reforço que tornaram possível a sua modelagem. No meu caso aprendi a dirigir um automóvel com o instrutor de uma auto-escola. Ele dizia o que eu devia fazer e eu seguia as suas instruções. Na medida em que o comportamento de seguir suas instruções eram consequenciados com reforçamento positivo, seja o reforçamento proporcionado pelo próprio instrutor, ou o reforçamento gerado pelo carro em movimento, criou-se as contingências para a modelagem do comportamento de dirigir.. A princípio meus comportamentos estiveram sob o controle de regras formuladas pelo comportamento verbal do instrutor, mas depois ficaram sob o controle das contingências arranjadas pela mecânica do carro.

Pensamento não é a mente em movimento! Pensamento é comportamento que precisa ser analisado à luz das contingências de reforço. São estas que serão reveladoras no sentindo de apontar porque um determinado comportamento está ocorrendo em nível encoberto e não em nível aberto. Alguém pode pensar na presença de uma outra pessoa: "que sujeito chato!". Se dissesse isso abertamente poderia estar sujeito a punições. O pensar permitiu a esquiva de contingências de controle aversivo. O pensar também pode proporcionar reforços positivos não encontrados na realidade, e neste caso ele seria chamado de fantasiar. Alguém pode imaginar-se rico, morando em uma mansão e andando de carro importado. Momentaneamente estes pensamentos proporcionarão reforçamento positivo. A questão é se o sujeito se torna refém do reforçamento gerado por meio de fantasias, o que o faz se distanciar da realidade. Neste caso só as contingências revelariam o motivo deste sujeito agir desta forma.

Portanto, a lei da atração é um bom exemplo de controle de estímulos. Comportamentos encobertos podem gerar estímulos que alteram a ocorrência de comportamentos públicos, e por sua vez os comportamentos públicos tornam mais provável a concretização daquilo que foi imaginado em pensamento. Não há nenhuma magia nisso. Mas é bom que se saiba, o que muda o mundo são as ações! Você até pode pensar positivo, mas tente agir de modo a aumentar as chances de ocorrer aquilo que tanto almeja.



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segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Há algo mais profundo que as contingências de reforço?

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

Psicologia profunda é somente aquela que cuida da mente inconsciente? Muitas vezes o termo profundidade é quase sinônimo de vida mental, ou ao menos aponta para a possibilidade de existência de uma vida mental, de uma mente que funciona apesar de todo ato de volição. Isso faz com que a psicologia fique dividida entre as psicologias profundas, aquelas que cuidam da vida mental, em especial se debruçam sobre a tarefa de desvendar os segredos do inconsciente, e as psicologias superficiais, aquelas que tratam o comportamento apenas como respostas que surgem como ações provocadas por estímulos. Nada mais enganoso!

O mentalismo é mesmo encantador. Ele abre-nos a possibilidade de uma hermenêutica sem fim, fazendo acreditar que ciência se constrói com retórica. Retórica como a arte de falar não define aquilo que o cientista faz. O cientista trabalha com previsão e controle, e isso significa que deve ser capaz de isolar as variáveis responsáveis pelo comportamento de seu objeto de estudos. Não há nada mais trabalhoso e "profundo" do que selecionar as variáveis relevantes para a explicação do comportamento de um determinado de objeto de estudos, principalmente quando este objeto é o comportamento humano.

O problema com o mentalismo é que ele não deixa claro quais são as variáveis relevantes para se ter um mínimo de controle e previsão sobre o comportar-se. Se estas variáveis são o id, o ego e o superego, não temos como alterá-las, uma vez que são inacessíveis a qualquer tentativa de manipulação direta. Objetariam os mentalistas dizendo que estas podem ser acessadas indiretamente via comportamento. Então, temos aqui um problema. Se o objeto de estudos, no caso o comportamento, é a única evidência sobre as variáveis que o produzem, não há possibilidades reais de serem testadas mudanças significativas neste objeto, já que a rigor é inviável provar que as mudanças apontadas estão relacionada a alteração em certas variáveis. Em outras palavras, qualquer relação de causalidade não pode ser estabelecida, o que abre campo para a pura especulação.

O problema se agrava quando se hipotetiza sobre as variáveis causadoras do comportamento, especulando que estas têm um comportamento muito próprio. Isso vai tornando cada vez mais problemático o estudo, pois não são mencionadas que outras variáveis são responsáveis pelo comportamento daquelas variáveis que são diretamente responsáveis pelo comportar-se. As variáveis responsáveis pelo comportar-se precisam ter o seu comportamento explicado, e ao se explicar o comportamento destas, perde-se o foco do comportamento em si. Desta forma, toda explicação mentalista tende a ser circular. O comportamento é a única evidência das causas que o provocam, e as causas precisam ter o seu comportamento explicado para que se possa acreditar que o comportamento em si é uma evidência contundente daquilo que o causa. No fim das contas o comportamento é a explicação para si mesmo.

As contingências de reforço fornecem-nos uma saída mais interessante, pois indicam qual é o objeto a ser estudado e quais são as variáveis responsáveis pela forma como esse objeto se apresenta. Na Análise do Comportamento as contingências de reforço constituem a unidade básica de análise. Elas indicam a princípio que pelo menos dois processos são responsáveis pela ocorrência do comportamento: o reforçamento e o controle por estímulos. Para melhor compreensão destes processos é sugerida a leitura do texto "Condicionamento operante: definição e aplicações."

O reforçamento faz referência às operações de consequenciação. Trocando em miúdos, o comportamento é afetado por suas consequências, que podem ser de dois tipos: reforçamento positivo e negativo. A princípio parece ser um modelo explicativo bastante simples. Mas não é como parece. As consequências afetam o comportamento de diferentes formas. Elas vão depender, por exemplo, dos esquemas que determinam a forma como elas são apresentadas, e aqui entramos no terreno dos esquemas de reforçamento. O leitor vai entender melhor os esquemas de reforçamento lendo outro texto deste blog: "Jogos de azar: uma breve reflexão sobre os esquemas de reforçamento." O esquema de reforçamento vai ser determinante para que as consequências produzam comportamentos mais ou menos resistentes à extinção, comportamentos mais ou menos frequentes, comportamentos mais ou menos vigorosos.

O número de consequências que podem afetar os comportamentos que constituem nosso repertório total de comportamentos são incontáveis. Algumas consequências podem ter maior poder de controle sobre o comportamento se forem biologicamente importantes: sexo, bebidas, comidas etc. A importância biológica vai ser determinada pela história filogenética da espécie a qual o organismo pertence. Então, o ambientalismo como modelo explicativo não está contido em si mesmo, pois depende de outros níveis de explicação. A adoção do modelo de causalidade ambientalista remete-nos a um diálogo fecundo com outras ciências que explicam como funcionam o substrato biológico que dá amparo ao comportar-se. Neste sentindo, uma psicologia contida em si mesma é um projeto estéril desde a sua concepção. Não se faz análise do comportamento sem considerar variáveis ambientais e também variáveis biológicas.

O número de consequências que afetam o comportar-se aumenta exponencialmente se considerarmos que variáveis previamente neutras quando associadas a outras variáveis que já afetam o comportar-se, passam a adquirir poder de controle sobre este. Neste rol entram aquelas variáveis que foram associadas às consequências de importância biológica. Estas novas variáveis podem se associar a outras, gerando, assim, novas variáveis controladoras do comportamento. Há um infinito de possibilidades de associações entre variáveis ambientais e comportamentais, o que demonstra o quão "profundas" são as contingências de reforço.

Até aqui estivemos considerando somente as operações de reforçamento. Há as operações de controle de estímulos, o que é outra forma de dizer que não somente as consequências afetam o comportar-se, mas também os contextos em que os comportamentos ocorrem. Nestes contextos estão estímulos que assumem o controle do comportamento depois de serem associados às consequências. Após esta associação estes estímulos adquirem a função de sinalizadores de consequências, aumentando ou diminuindo a probabilidade dos comportamentos que controlam. No texto "O Condicionamento operante: definição e aplicações" o leitor vai encontrar uma explicação mais detalhada sobre como os contextos assumem o controle do comportar-se.

O número de variáveis dos contextos que afetam o comportar-se é ampliado se considerarmos que outras variáveis parecidas àquelas que controlam as emissões do comportamento, adquirem também a função de diminuir ou aumentar suas probabilidades de ocorrência. Por sua vez, o poder de controle destas variáveis sobre o comportar-se vai depender dos esquemas de reforçamento, ou seja, vai depender da forma como as consequências ocorrem. As combinações entre variáveis do contexto e as operações de consequenciação podem ser as mais diversas possíveis, o que revela o caráter multideterminado do comportamento, ao mesmo tempo que revela a complexidade deste objeto de estudos. Sobretudo, revela quão "profunda" são as contingências de reforço.

A coisa piora se ainda considerarmos que as contingências dos comportamentos individuais podem se entrelaçar com as contingências culturais. Por sua vez a cultura acaba estabelecendo regras para as condutas individuais, regras que afetam o comportamento de pessoas e grupos. O resultado final do comportamento de pessoas, grupos e instituições é a manutenção ou mudança de padrões culturalmente estabelecidos, e tais padrões podem ser determinantes para a sobrevivência da humanidade e de seu modo de existir. E aqui se revela a necessidade de diálogo da Análise do Comportamento com as Ciências da Sociedade, por mais que estas tenham a tendência em descrever as culturas em termos topográficos ou apelarem para descrições mentalistas no afã de explicar os comportamentos das coletividades.

De tudo isso fica uma constatação: as contingências de reforço são muito mais profundas do que qualquer modelo de causalidade mentalista. Enquanto unidade de análise as contingências do reforço permitem uma visualização das variáveis determinantes para a ocorrência do comportar-se, e da complexidade que envolvem a sua emissão. Sobretudo, elas permitem a construção de uma empreitada científica que abre margens para o controle e previsão. Por sua vez esta empreitada as transforma em um instrumento não somente de análise, mas também numa poderosa ferramenta de intervenção. Então, porque as contingências do reforço não haveriam de ser profundas?



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sábado, 13 de julho de 2013

"A dor é inevitável. O sofrimento é opcional": breve reflexão sobre o comportamento social

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

O título deste texto faz menção a uma famosa frase do poeta Carlos Drummond de Andrade. Ela no mínimo indica que há circunstâncias na vida em que a dor vai ocorrer independente daquilo que fizermos. Isso aponta para algo que caracteriza os comportamentos sociais, que é a incontrolabilidade dos eventos ambientais, como, por exemplo, a incontrolabilidade dos estímulos reforçadores, pois estes dependem dos comportamentos de outrem. Neste sentido os comportamentos dos outros com quem nos relacionamos se constituem como ambiente para aquilo que fazemos. Desta forma, ambiente é tudo aquilo que afeta o comportar-se. Por definição é tudo aquilo que é externo ao comportamento e não necessariamente o que é externo ao organismo que se comporta. Não importa a localização dos eventos que afetam o comportar-se, se estão sob a pele ou fora dela, ou seja, se são privados ou públicos. O que importa é se eles afetam o comportamento e como eles o afetam. 

No caso do comportamento social, que Skinner (1998, p. 325) define "como o comportamento de duas ou mais pessoas em relação a uma outra ou em conjunto em relação ao ambiente comum", as consequências do comportar-se são mediadas pelo comportamento do outro com quem nos relacionamos. Isso acaba diferenciando o comportamento social do comportamento reforçado diretamente pelo ambiente mecânico. "O comportamento reforçado através da mediação de outras pessoas diferirá de muitas maneiras do comportamento reforçado pelo ambiente mecânico. O reforço social varia de momento para momento dependendo da condição do agente reforçador." (SKINNER, 1998, p. 327).

O reforço social varia de momento para momento e depende das condições do agente reforçador. Isso quer dizer que em tese é impossível prever com exatidão a maneira como o outro agirá. Lógico que o conhecimento sobre o comportamento do outro e das circunstâncias que o afetam acabam possibilitando a construção de margens de previsão bastante aproximadas. Mas, ainda, assim, há espaço para o imprevisível, até porque o comportamento é afetado por múltiplas variáveis simultaneamente, e ter o conhecimento de todas elas em ambiente natural é algo que em tese é impraticável. A partir daí chegamos à conclusão que o comportamento social é mais flexível e ao mesmo tempo caracterizado pela incontrolabilidade dos eventos que o afetam. Mas neste contexto a incontrobalidade quer dizer que não se pode construir margens de previsão absolutas. Estas margens são sempre aproximadas.

Mas incontrabilidade também quer dizer que independente do que fizermos há outras variáveis que afetam o comportamento do outro com quem relacionamos de modo mais contundente, e por isso que as consequências não podem ser alteradas. Em outras palavras, independente do que fizermos em muitas circunstâncias o comportamento do outro não vai se alterar, e é aí que mora o perigo, ou seja, é daí que vem o sofrimento, ou para ser fiel ao poeta, é daí que surgem os eventos inesperados que nos fazem sentir dor. Por isso vamos com ele concordar que a dor é inevitável. Mais cedo ou mais tarde ela vai acontecer. Às vezes porque somos incapazes de alterar o curso de ação das outras pessoas, ou porque formulamos regras que não descrevem com fidelidade as contingências que afetam o comportamento destas. Quando o segundo caso acontece, podemos falar que alimentamos uma expectativa com relação ao outro e esse outro agiu de modo a contrariar a nossa expectativa.

Se a dor é inevitável, o poeta ensina-nos que o sofrimento é opcional. Há um ensinamento na segunda parte da reflexão poética. Ela quer dizer que podemos alterar os nossos comportamentos de modo a atenuar a dor gerada pelos comportamentos dos outros. Podemos, por exemplo, evitar a pessoa que provocou a dor. Podemos evitar a exposição às situações que nos lembrem o agente causador da dor: um restaurante, uma música, um perfume etc. Podemos nos expor a situações que nos proporcionem bem estar: conhecer novas pessoas, frequentar novos lugares, estabelecer novos diálogos etc. Se não podemos em muitas situações mudar a forma como as pessoas agem, e na maior parte do tempo as variáveis que afetam os comportamentos dos outros não estão sob o nosso controle e daí vem a incontrolabilidade, podemos, no entanto, por outro lado mudar os nossos comportamentos.

É mais salutar tentarmos modificar a nossa forma de agir do que insistir na mudança dos comportamentos dos outros. Assim evitamos aborrecimentos desnecessários e temos a oportunidade de ampliarmos nosso repertório de habilidades sociais. Portanto, a dor pode se transformar em ocasião para construirmos novos olhares sobre as nossas formas de agir, ou seja, a dor pode estabelecer a ocasião para o surgimento do autoconhecimento, e o autoconhecimento é ponto de partida para efetuarmos mudanças em nós mesmos.

Referência:

SKINNER, B. F. Ciência e comportamento humano. 10 ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.




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segunda-feira, 1 de julho de 2013

Doma Racional e Condicionamento Operante

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

Este post é para os aficionados por animais, mas não somente para estes. Ele também é dirigido aos aficionados pela Análise do Comportamento. A Análise do Comportamento enquanto ciência demonstra que no contexto do laboratório ou fora dele o comportamento está sob constante controle do ambiente. No ambiente do laboratório o método experimental é utilizado para delinear com exatidão que variáveis estão controlando o comportamento, ou seja, que variáveis estão afetando o modo como o comportamento ocorre, se sua ocorrência é menos ou mais frequente e se ela depende da maneira como muda o ambiente, se a probabilidade é maior ou menor quando se apresentam ou retiram determinados estímulos e assim por diante. Sendo assim, o método experimental permite a criação de arranjos experimentais que possibilitam testar a relação entre determinados eventos ambientais de um lado e eventos comportamentais de outro.

Quando Skinner estudou o comportamento operante em sua famosa caixa, que mais tarde foi chamada de Caixa de Skinner, ele fez nada mais e nada menos do que criar arranjos experimentais. Nestes arranjos pôde observar os comportamentos de sujeitos experimentais e como tais comportamentos se alteravam em função da modificação em determinados aspectos do ambiente relacionados a ocorrência destes. No clássico experimento do roedor que pressiona uma barra para obtenção de alimentos, criou-se um arranjo experimental que permitiu que determinados comportamentos fossem seguidos de consequências claramente especificadas, consequências que poderiam ser quantificadas quanto ao número de vezes que ocorriam, de modo a se estabelecer uma relação entre a força do comportamento e a quantidade de ocorrência destas consequências. No texto "Condicionamento Operante: definição e aplicações", o leitor encontrará uma descrição do experimento de Skinner, e entenderá os princípios comportamentais que ele ilustra.

Por ora é importante assinalar que o método experimental é um importante recurso metodológico que permite a criação de arranjos experimentais relevantes para a identificação das variáveis que afetam o comportar-se e de que modo elas afetam. Logicamente não podemos esperar que o mundo fora do laboratório apresente-se de maneira tão didática quanto o mundo controlado dos arranjos experimentais. No entanto, isso não nos impede de analisar o comportamento, pois conhecendo quais são os processos por trás de sua ocorrência, não é impossível identificar como eventos comportamentais e ambientais se influenciam mutuamente. Uma vez que seja possível identificar tais eventos, alterações podem ser introduzidas no ambiente de modo a testar o quanto existe entre eles uma relação de dependência. Se eu sei que determinados reforços podem aumentar a ocorrência de um determinado comportamento, posso utilizá-los para tornarem este comportamento mais frequente, bastando para isso esperar que o comportamento ocorra para em seguida apresentá-los, e é exatamente isso o que faz Monty Roberts em sua doma racional.

O que é a doma racional? É um método criado pelo norte-americano Monty Roberts para domar cavalos sem a utilização de violência, sem a utilização de controle coercitivo. Sabemos que o controle coercitivo está baseado no uso de punição e de ameaça de punição. Sabemos ainda quais são os subprodutos que podem ser gerados por este tipo de controle: agressividade, medo, submissão, ansiedade etc. Mas Monty Roberts abole o uso deste tipo de controle. Ele não usa punição, não usa de nenhum método coercitivo para fazer o animal sentir dor ou sofrimento. O que ele usa então? Ele simplesmente usa reforço positivo, e o utiliza da maneira correta. Vejam o vídeo abaixo, ele tem apenas 6:52 (seis minutos e cinquenta e dois segundos) e vale muito a pena ser visto e apreciado:



Lógico que Monty não chamaria seu método de condicionamento operante, e talvez não reconheceria jamais as semelhanças entre a doma racional e o clássico experimento do roedor na Caixa de Skinner. Monty não é um analista do comportamento e talvez falte-lhe o repertório adequado para notar tais semelhanças e entender que o que ele faz é criar as condições adequadas para apresentar reforços positivos contingentes aos comportamentos que ser quer modelar no animal, algo que Skinner fez quando reforçou por aproximações sucessivas os comportamentos que se aproximavam do comportamento almejado para o seu sujeito experimental, neste caso o comportamento de pressionar a barra para a liberação de alimento. Em seu repertório o roedor não tinha esse comportamento, mas reforçando por aproximações sucessivas os comportamentos que dele se aproximavam, ao final da sessão experimental o roedor conseguiu pressionar a barra. Magia? Não!!! Condicionamento operante, essa é a resposta mais adequada.

Monty por vezes é chamado de encantador de cavalos. Ele parece mesmo encantar os cavalos com sua docilidade que abole o uso de punições. Mas não há nenhum encanto ou magia em todo o processo de doma dos cavalos. Há apenas liberação de reforços positivos contingentes aos comportamentos de docilidade do animal. O resultado é que tais comportamentos tornam-se mais frequentes, e ao final da doma o animal se apresenta mais dócil do que quando ela foi iniciada, podendo ser montado por qualquer pessoa. É isso que o vídeo acima demonstra. Ele é uma excelente aula sobre condicionamento operante. É um bom exemplo de um experimento sendo feito a céu aberto, e o redondel é o laboratório utilizado para esse fim. 

O vídeo tanto mostra a modelagem de novos comportamentos, neste caso os comportamentos de docilidade, quanto a extinção de comportamentos já estabelecidos no repertório do animal, que são os comportamentos de demonstração de agressividade. Estes últimos são colocados em extinção, por isso Monty deixa o cavalo correr ao redor do redondel. Como ele havia sido submetido anteriormente à doma tradicional com uso de violência, humanos representavam possibilidade de punição, ou seja, eram estímulos discriminativos que sinalizavam a possibilidade de uso de controle coercitivo. Por esse motivo o cavalo age com agressividade no início da sessão quando Monty se aproxima. Mas como a aproximação não é seguida de punição, logo o estímulo "humanos" perde a função de ser estímulo sinalizador de punição.

É notável como a aproximação do animal com relação a Monty é seguida de pequenos gestos que funcionam como reforços positivos, gestos como coçar o animal e acariciá-lo. Com o prosseguimento da sessão os comportamentos de docilidade vão se estabelecendo no repertório do animal. Em apenas 25 minutos de doma Monty consegue celar o cavalo e colocar sobre ele uma pessoa. Esta façanha ilustra o poder do reforçamento positivo. Reforços positivos utilizados da maneira correta podem produzir resultados notáveis!  Use reforço positivo em seus relacionamentos, eu recomendo!



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quarta-feira, 19 de junho de 2013

Psicologia e Compromisso Social

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

Quem disse que o Café com Ciência é um blog despolitizado? Ele não é, pois a Psicologia não pode ser despolitizada. A Psicologia precisa dar conta do desencadeamento de mudanças que se processam no indivíduo a partir da ocorrência de eventos que se manifestam na vida pública. A Psicologia não pode fugir desta tarefa, caso contrário, ela corre o risco de se descaracterizar enquanto ciência. Ela não pode se fechar em si mesma e acreditar que o indivíduo é movido apenas por forças de origem psicológica, se não acaba caindo num psicologismo sem fim, num psicologismo que pode levá-la a desconsiderar os contextos sócio-históricos que criam as circunstâncias que produzem as mudanças comportamentais que se fazem notar no âmbito da vida individual.

Para honrar com o compromisso de construção de uma Psicologia não psicologizante, pretendemos em breves linhas analisar os últimos eventos que têm mobilizado grande parte da população brasileira em torno de diversos ideais que possuem um pano de fundo em comum: a insatisfação com a vida política. Insatisfação, é isso que sinaliza toda a movimentação política das últimas semanas. Insatisfação é sinal de utilização de controle aversivo. Mas de onde vem esse controle aversivo?

A pergunta não é retórica! Isso porque o panorama social aponta num sentido inverso. A economia vai bem, ou seja, o mercado interno está aquecido, apesar da inflação. Está havendo geração de empregos. Houve diminuição nos índices de pobreza. O consumo tem aumentado, e o poder de compra da população tem acompanhado o aquecimento do mercado interno. Sendo assim, não era para os brasileiros estarem satisfeitos com o país que vivem? Tudo indica que o panorama social sinaliza com reforços positivos.

No entanto, a conduta dos manifestantes nas últimas semanas nos fazem constatar que a população brasileira está insatisfeita. Insatisfação é um comportamento emocional que surge como consequência da utilização de controle aversivo. Este controle aversivo vem de nossa longa história de privação. Apesar do crescimento da economia, o desenvolvimento econômico não é acompanhado de perto de desenvolvimento social. O desenvolvimento social segue um ritmo muito mais lento que o desenvolvimento econômico. E todo crescimento econômico não é revertido em serviços públicos de qualidade para toda a população. Isso ocasiona em privação destes serviços. O povo brasileiro há muito tempo vem sendo privado de uma saúde com qualidade, de uma educação com qualidade e de outros serviços essenciais para a construção de uma vida digna.

Mas, ainda, assim, persiste a velha ideia capitalista de que todos podem ascender socialmente, desde que se esforcem para alcançar tal ascensão. Temos aí uma regra: "o esforço será seguido de perto pela recompensa da ascensão social". Esta é a promessa do capitalismo! Na prática esta regra descreve contingências reais? Não! Pelo menos para boa parte da população esta regra está muito distante das contingências que controlam a vida das pessoas. A privação a qual são submetidas geram controle aversivo. Somado a tais privações existem os constantes escândalos de corrupção e as tentativas reiteradas de fortalecimento de ações preconceituosas contra as minorias, vide, por exemplo, o projeto da "cura gay", e o favorecimento de classes profissionais já abastadas, e temos aí o exemplo dos médicos que lutam por maior concentração de poder em suas mãos através do projeto do "ato médico".

Diante de tanto controle aversivo, a população só pode reagir usando o contracontrole. Contracontrole é um produto gerado pela utilização de controle aversivo. Não se trata de reagir apenas ao aumento da tarifa do transporte público. O aumento da tarifa é apenas mais uma contingência aversiva entre tantas outras que vem sendo construídas desde os tempos da colonização. Até, então, estas contingências estavam funcionando perfeitamente bem para manterem a população sob controle. Porque mantiveram por tanto tempo a população sob controle, foram selecionadas como práticas culturais. Mas o efeito cumulativo de tanta estimulação aversiva acabou gerando contracontrole. Estamos, então, diante de um momento histórico muito importante, que pode contribuir para o surgimento de novas contingências que levem à seleção de novas práticas culturais. Só o tempo dirá o quão efetivo está sendo este contracontrole exercido pelas populações que foram até às ruas.

O mais interessante é que tal contracontrole tem sido dinamizado pelo poder das redes sociais. Estas contribuem para o compartilhamento de informações, produzindo contingências que afetam um número maior de pessoas num intervalo de tempo muito curto. Há algo de fabuloso nas redes sociais. Elas permitem as pessoas se expressarem! Essa possibilidade gera a oportunidade de maior contato com reforços sociais positivos. Quanto maior a possibilidade de experimentar reforços positivos, com mais frequências as pessoas vão se engajar em comportamentos de se mobilizarem através da rede mundial de computadores. A mídia tradicional não abre para a população esse espaço de participação. Já as redes sociais são marcadas por essa abertura. Elas permitem a participação popular, participação que gera reforços sociais positivos extremamente poderosos para a manutenção de comportamentos de mobilização social. Sem dúvida nenhuma as redes sociais são uma nova prática cultural. São elas o quarto poder?

Estas novas práticas culturais têm criado contingências que afetam a forma das pessoas se organizarem. Geram novas formas de subjetivação, ou seja, novas formas das pessoas descreverem as contingências que controlam os seus comportamentos e os comportamentos de seus semelhantes que também estão submetidos a estas contingências. No fim das contas novas formas de conhecimento estão surgindo. Isso faz com que as pessoas comecem a pensar o mundo ao seu entorno de forma diferente, ou dizendo de outra forma, isso faz com que as pessoas se comportem com relação a este mundo de um modo distinto da maneira como se comportavam anteriormente. Novos tempos, novas contingências, novos comportamentos, novas práticas culturais, novos desafios para a Psicologia enquanto ciência e profissão.

Não fujamos destes desafios!



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sábado, 1 de junho de 2013

Cinco Dicas Para Acabar Com Um Casamento

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

O texto que se segue não tem a pretensão de incentivar os casais a acabarem com os seus casamentos. Ao contrário, ele se presta a esclarecer os tipos de situações que costumam minar as relações entre as pessoas casadas. Ao invés de seguir as dicas, é aconselhado que se faça tudo ao contrário, ao menos que o leitor queira colocar um fim no seu relacionamento. Seguem cinco tipos de situações que é comum ver os casais vivendo, e que de alguma maneira acabam gerando grandes "desgastes" nas relações.

Acredite na fábula do amor eterno. Nossa cultura permeada por valores cristãos e construída sobre o ideal da monogamia, costuma incentivar a crença no amor eterno. No altar os casais juram ficarem um do lado do outro até que a morte os separem. Nada contra tal juramento, desde que não se acredite que o amor vai subsistir às tempestades sem que se faça algo para que ele possa ser fortalecido. Explico-me! Amor é comportamento operante. Todos sabemos que comportamentos operantes são mantidos se forem reforçados. Comportamento reforçado é comportamento mantido. O problema com a fábula do amor eterno é que ela leva as pessoas a pensarem: "se ele(a) me ama precisa me tolerar do jeito que sou!" Com isso a pessoa abre mão de buscar melhorias em seus próprios comportamentos. Pior do que isso, ela deixa de reforçar os comportamentos de amar do(a) parceiro(a) por acreditar que ele(a) é obrigado(a) a amá-la só porque fez o juramento de suportá-la até o fim de sua vida. Nada mais incoerente! Comportamento de amar que não é consistentemente reforçado pode se extinguir!

Um relacionamento não pode estar fundamentado em um juramento! Um relacionamento precisa estar fundamentado em práticas concretas. É necessário que os comportamento que expressem amor sejam reforçados. Amar não é uma obrigação que se coloca em prática em função de um juramento. Amar é comportar-se porque o comportamento é seguido de reforços. Se as pessoas entendessem que relacionamentos são feitos de comportamentos, certamente elas teriam maiores chances de serem felizes, pois se comportariam de modo a prover reforços para os comportamentos de amar do(a) parceiro(a).

Desrespeite a individualidade do(a) parceiro(a). Via de regra alguém casa com outro alguém diferente de si. Nem gêmeos idênticos são de fato idênticos. Podem possuir a mesma carga genética, mas são psicologicamente diferentes, portanto, possuem repertórios e tendências comportamentais bastante distintas. Numa relação é preciso respeitar a individualidade do parceiro. Outro valor de nossa cultura cristã e monogâmica é que os casais devem ser uma só carne. Muitos levam isso ao pé da letra e acham que devem compartilharem todos os seus momentos, ou seja, que devem fazer tudo juntos! Nada mais entediante e falacioso. É fácil combater tal argumento. Pessoas são diferentes, portanto, o que é reforçador para um pode não ser para o outro.

Então, os parceiros devem ter os seus momentos em que possam fazer coisas sozinhos.Se o cara gosta de futebol ele não precisa obrigar a esposa a acompanhá-lo nas peladas no clube. Às vezes ela não gosta de futebol, então não deve se sentir obrigada a acompanhá-lo, mas também deve tentar não impedi-lo de jogar com os amigos. O que muitas vezes acontece entre casais é que depois de casados eles abrem mão de prazeres que desfrutavam durante a vida de solteiro. É lógico que muita coisa muda com a vida de casado. No entanto, não se pode abrir mão de tudo. Pelos menos alguns dos prazeres, ou em outras palavras, ao menos algumas fontes de reforçamento precisam ser mantidas, sob pena de privar um dos parceiros de reforços importantes, o que gera frustração, e frustração acaba gerando raiva.

Não valorize a relação sexual. A história evolutiva nos tornou sensíveis aos reforços de origem sexual. É uma questão filogenética. A prática sexual foi importante para a sobrevivência da espécie humana. Ela contribuiu para o aumento da prole, mas também se transformou em importante fonte para a obtenção de prazer. Portanto, os reforços sexuais extraem seu poder da história evolutiva da espécie humana, sendo importantes reforçadores primários, ou seja, reforçadores de importância biológica. Disso conclui-se que sexo não deve ser feito apenas com um fim procriativo. Não somos animais. Fazemos sexo porque é prazeroso. Não valorizar a relação sexual é ignorar que ela pode ser uma interessante fonte de prazer para o casal, ou seja, que ela pode ser uma interessante fonte de reforços positivos. Ela também pode ser um momento em que o casal se encontra para aprofundar a sua intimidade, para aprofundar no conhecimento do corpo e dos sentimentos do(a) parceiro(a). Desvalorizar a relação sexual é ignorar que esta pode criar as contingências que possibilitam a construção deste tipo de conhecimento.

Logicamente existem pessoas que não conseguem viver a relação sexual em toda a sua plenitude, pois têm histórias de repressão sexual que as bloqueiam para o sexo. Neste caso é importante buscar ajuda profissional, pois a relação sexual pode acabar se transformando em fonte geradora de estímulos aversivos que produzem ansiedade, temor, entre outros sentimentos desconfortáveis.

Aja com indiferença. Dentro de um relacionamentos cada parceiro têm demandas diferentes. Se tornar indiferente a estas demandas pode ser prejudicial à relação. A indiferença se traduz pelo comportamento de não valorizar aquilo que o outro parceiro considera importante. Isso leva a suspensão de reforços condicionados importantes, tais como: afeto, carinho, atenção etc. Inevitavelmente a suspensão destes reforços vai colocar em extinção comportamentos de demonstração de amor por parte do parceiro. Se um dos parceiros esfria, isso acaba atingindo a outra parte, pois ela vai sentir a mudança de comportamentos. No entanto, esta outra parte pode não estar percebendo que o esfriamento do parceiro se deve à suspensão de importantes reforços condicionados. Então, um relacionamento é formado por comportamentos em constante interação. A emissão de um comportamento de uma das partes acaba afetando a outra parte e isso precisa ficar bem claro. Quase nunca um relacionamento se esfria por causa apenas de um dos parceiros. Mas, pode ser que o comportamento de um tenha mais peso do que o outro. No entanto, somente uma avaliação profissional pode identificar os pesos dos comportamentos dos parceiros dentro de uma relação.

Abuse do controle aversivo. Controle aversivo diz respeito ao uso de punição ou de ameaça de punição. Os subprodutos deste tipo de controle são inúmeros: ansiedade, tristeza, raiva, descontentamento, retraimento emocional e social etc. Há casais que não conseguem conversar, eles apenas berram, ou seja, só conversam para punirem a outra parte. Não observam a ocorrência dos comportamentos que beneficiam a relação e nem os reforçam. Mas quando um comportamento incômodo é manifestado logo vem a punição. Isso gera a seguinte impressão na parte punida: "ele(a) só repara em meus defeitos. Será que não tenho qualidades?" É preciso lembrar que o outro é diferente de mim, e ele nunca agirá como eu ajo. Alimentar este tipo de expectativa é criar condições para se frustrar, pois quando o outro não corresponde ao que eu espero, minha atitude é puni-lo por agir de modo não esperado. O outro pode reagir a punição exercendo contracontrole, então, cria-se as condições para que o conflito se estabeleça. Ainda que o outro não exerça contracontrole, ele inevitavelmente vai se afastando da fonte de punições e este afastamento acaba distanciando os parceiros e tornando mais escassos os reforços positivos na relação.

Dessas cinco dicas fica claro uma coisa: relações são o produto de contingências que surgem da interação entre os parceiros. A relação é produto da maneira como se comportam os parceiros. Mudanças na relação só ocorrem se houverem mudanças de comportamentos. Não há milagres! Sem mudanças comportamentais não há mudanças que se efetivem no interior da relação.

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quarta-feira, 29 de maio de 2013

Da Topografia à Função do Comportamento: Pichon-Rivière e a Psicologia Social

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

Topografia e função são dois conceitos que já nos são conhecidos. Eles já foram citados e definidos em outros textos neste blog. Mas vamos retomá-los brevemente na tentativa de demonstrar como o mentalismo costuma se ater apenas às descrições das topografias dos comportamentos, deixando de lado aquilo que é mais importante, que é a função, algo que pode ser evidenciado na medida em que são elucidadas as contingências de reforço responsáveis pela emissão e manutenção de um dado comportamento. Para darmos conta daquilo que se propõe, elegemos Pichon-Rivière como o nosso exemplo. 

Primeiro procuremos esclarecer quem é Pichon-Rivière. Pichon para os íntimos (Rs!), é um dos mais ilustres representantes da Psicologia Social. O que é a Psicologia Social? É uma das áreas de atuação do profissional da Psicologia, área que articula conhecimentos oriundos da Psicologia e das Ciências Sociais, tentando demonstrar que o homem é muito mais do que um ser individual moldado por "forças psicológicas", sendo também um ser social que sofre extensa influência dos contextos sociais em que transita, ou mais especificamente é um ser social que sofre forte influência dos grupos a que pertence.

Existe na Psicologia Social uma preocupação em desvendar como os grupos funcionam, pois há um entendimento implícito que a realidade social é composta pela interação dos diferentes grupos que formam os diversos segmentos desta mesma realidade. O entendimento a respeito do funcionamento dos grupos levaria a um entendimento das diversas realidades sociais. Por isso toda uma insistência em tentar entender as leis que estão por trás do funcionamento dos grupos. No entanto, estas "leis" acabam caindo em descrições das topografias dos comportamentos das pessoas quando estão interagindo em situações grupais, e tais descrições costumam ser agrupadas sob rótulos que teriam por função especificar os tipos de papéis sociais que normalmente são assumidos no interior dos grupos.

Então, parte-se do pressuposto que existem papéis que são "encenados" quando se está interagindo em um grupo. Estes papéis são o produto de um conjunto de forças inferidas a partir da execução dos mesmos, forças de origem mental que obscurecem as contingências de reforço responsáveis pelos comportamentos das pessoas que estão interagindo com outras em situações grupais. Pichon-Rivière fala de três forças, e a forma com que estas se manifestam são determinantes para a maneira como as pessoas encenam os seus papéis no interior do grupo.

Elas são: o Depositado, o Depositário e o Depositante. Juntas as três forças formam a dinâmica dos 3 D's, e por sua vez esta dinâmica é determinante para a dinâmica dos grupos. Os leitores perceberão que há nestes conceitos um forte compromisso com as teorizações da Psicanálise. O depositado é aquilo que o grupo ou um dos seus membros não tem condições de assumir e deposita em alguém. O depositário é quem aceita o conteúdo depositado sobre si. Já o depositante é aquele que deposita. Que conteúdos são esses? Conteúdos afetivos de origem inconsciente, que se não forem interpretados continuarão sendo imperceptíveis para o grupo, mantendo, portanto, seus padrões de funcionamento, padrões que podem levá-lo a posturas que causem desconfortos para todos os seus membros. Padrões que podem manter a rigidez na encenação de certos papéis que prejudicam o funcionamento global do grupo.

Será que não podemos identificar os 3 D's com os três termos da contingência de reforço? Se o depositado é o conteúdo que se deposita, poderia ele ser identificado, portanto, com o comportamento das pessoas. Quem deposita age de certa forma para depositar. O verbo depositar é apenas uma maneira de expressar que as pessoas agem de uma certa forma quando estão se relacionando. Elas expressam suas emoções, elas xingam, elas se divertem, elas sorriem, elas brigam etc. Esses são os conteúdos que são depositados, ou seja, no fim das contas estes conteúdos são comportamentos, e quando as pessoas se comportam os seus comportamentos têm efeitos umas sobre as outras. Em outras palavras, seus comportamentos têm consequências!

Imaginemos um episódio de relação entre o fulano A e o beltrano B. A diz que B é inteligente. B responde agradecendo. A depositou algo sobre B, melhor dizendo, ele agiu com relação a B. Para que isso acontecesse foi necessário B estar presente. B agiu como estímulo discriminativo estabelecendo a ocasião para A elogiá-lo. Talvez B tenha conseguindo resolver uma tarefa muito difícil e por isso A disse que ele era inteligente. O comportamento de B ao resolver a tarefa criou a ocasião para que A o elogiasse. Talvez fosse uma tarefa que o grupo como um todo não estava conseguindo resolver, então, não somente A reconheceu o esforço de B, mas talvez C e D tenham feito o mesmo. Talvez todo o grupo tenha seguido o exemplo de A, elogiando, portanto, o comportamento de B.

B ao agradecer o elogio de A, provê consequências para o seu comportamento de elogiar, ou seja, B reforça o comportamento de A. O depositário é equivalente ao ouvinte num episódio de interação verbal. Sua reação ao que ouve reforça os comportamentos do falante, e neste caso A é o falante. Os outros membros do grupo também podem agir como falantes em episódios de interação com B. Ao reagir ao comportamento de A, o sujeito B, apresenta consequências para os seus comportamentos, agindo, assim, como o outro termo das contingências de reforço, neste caso os consequentes. A seria os antecedentes, ou seja, sua presença e seu comportamento de elogiar são o contexto para B agradecer ao elogio, assim como a presença de B cria a ocasião para que A o elogie. Então, consequentes e antecedentes vão trocando de lugar na medida em que o episódio de interação se desenrola. Os antecedentes são equivalentes aos comportamentos do depositante, de quem deposita, de quem inicia o episódio de interação. Depositante e depositário vão trocando de lugar, em outras palavras, antecedentes e consequentes vão tendo suas funções alteradas na medida em que a interação entre os membros se desenrola. Importante notar que a descrição dos 3 D's é topográfica. Não há preocupação em especificar as condições responsáveis pela forma como os diversos conteúdos são depositados nos diferentes membros do grupo, pois a deposição em si é suficiente para identificar o tipo de papel que está sendo exercido. Mas é sempre bom lembrar que depositar é comportar-se em relação a algo ou a alguém, e tal comportamento é modelado e mantido pelas contingências de reforço.

Entendendo a relação entre os 3 D's, que é uma forma de designar os três termos das contingências de reforço, uma forma mais topográfica que funcional, passemos à análise dos papéis sociais citados por Pichon, que são: líder de mudança, líder de resistência, bode-expiatório, porta voz e representantes do silêncio. O líder de mudança é aquele que se arrisca em nome do grupo, chamando para si as responsabilidades pela mudança. A descrição é topográfica demais e não especifica as condições que motivam esse tal líder de mudança a agir assim. Ele está sendo pressionado por cobranças pontuais com relação ao cumprimento das tarefas do grupo? Essas tarefas criam a ocasião para que ele assuma tais responsabilidades? Ele age assim porque é reforçador receber elogios dos demais que reconhecem seu esforço? Vejam, as contingências é que moldam os comportamentos que estão sendo chamados de atitudes de um líder de mudança.

O líder de resistência, também chamado de sabotador, é aquele que costuma brecar os avanços do grupo, resistindo quase sempre às proposições do líder de mudança. Ele é uma espécie de antítese do líder de mudança. Talvez o lado negro da força. Ok, não resisti à comparação com Star Wars! (Rs!!!). As mesmas questões se aplicam ao sabotador. Que circunstâncias levam-no a sabotar os projetos do grupo. Ele está exercendo contracontrole? Ele não tem habilidades para acompanhar o desenvolvimento do grupo, então, age de forma a sabotar? Só as contingências poderiam esclarecer tais questionamentos.

O bode-expiatório é aquele sobre quem são depositadas as culpas do grupo. É o culpado pelos insucessos do grupo. O grupo o elege para se livrar de suas próprias culpas. Aqui a descrição fornece algumas pistas sobre as contingências que podem agir na determinação dos comportamentos de eleger alguém para se culpar. Culpar é uma forma de se esquivar. É mais fácil culpar o outro do que assumir os próprios erros. Agindo dessa forma o grupo talvez se esquive de certas tarefas desconfortáveis, evite certos controles aversivos. Punindo o comportamento de alguém o grupo evita o enfrentamento de certas situações aversivas. A eleição de um bode-expiatório pode indicar a existência de controle aversivo dentro do grupo.

O porta voz é o que fala em nome do grupo. É quem extravasa as ansiedades do grupo, ou seja, é quem as nomeia. Mais uma vez a descrição topográfica não fornece elementos suficientes para especificar as contingências que levem o porta voz a falar em nome do grupo. Muitas combinações de contingências podem levar a este comportamento, então, cada situação grupal deve ser analisa individualmente. Teorizações generalistas podem não se aplicar a situações tão individuais, por isso todo o cuidado é pouco na hora de se realizar uma boa análise funcional do funcionamento de um grupo, o que requer a análise dos comportamentos de seus membros em interação e das contingências de reforço que surgem destas interações.

Por último, os representantes do silêncio. Com o seu silêncio denunciam os ruídos no interior do grupo. Então, devemos nos perguntar: o que levam as pessoas a assumirem o silêncio como padrão de comportamento ao interagirem em situações grupais? Mais uma vez estamos diante de uma infinidade de contingências que podem ser responsáveis por essa forma de se comportar. E são estas contingências que devem ser analisadas para que os comportamentos dos membros de um grupo possam se tornar compreensíveis. Descrições topográficas podem gerar enganos que só serão elucidados com a análise das funções dos comportamentos das pessoas interagindo em situação grupal.

Há que se considerar que as contingências que modelam os comportamentos dos grupos são mais complexas, mas isso não se constitui em uma ameaça para o empreendimento de uma análise funcional desses comportamentos. Fugir pela tangente das descrições topográficas não é a saída! Encaremos que a análise funcional pode nos fornecer elementos essenciais para planejar novas formas de interação para os grupos. E porque não pensar que podem também fornecer elementos para o planejamento de novas culturas? Walden II não seria um bom exemplo?




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segunda-feira, 22 de abril de 2013

Laranja Mecânica: uma análise comportamental

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

O filme Laranja Mecânica conta a história de Alex, um jovem inglês que é líder de um grupo de deliquentes que cometem todos os tipos de horrores durante as madrugadas: espancamentos, brigas com grupos rivais, assaltos, estupros e até mesmo assassinato. Numa das investidas realizada pelo grupo durante uma madrugada, os companheiros de Alex armam contra ele, pois estavam cansados de sua liderança autoritária. Como o grupo só conhece a agressão, usam-na para dar uma lição em Alex.

Num assalto realizado em um hotel fazenda, Alex acaba assassinando a proprietária do hotel. Os companheiros de gangue atinjem-no com algumas garrafas de leite na cabeça, deixando-o inconsciente e transformando-o em um alvo fácil para a polícia que já havia sido acionada. Por ironia do destino a violência de Alex acaba se voltando contra ele, pois os liderados se rebelam e o destituem do poder usando os mesmos métodos coercitivos. Enfim, coerção gera coerção, e o filme Laranja Mecânica é muito claro neste sentido, pois elucida de maneira bastante óbvia os efeitos colaterais gerados pela utilização de controle coercitivo.

Tais efeitos se fazem evidente no tratamento que Alex é submetido depois que é levado para a prisão. Tendo recebido uma pena de 14 anos de reclusão em um instituto prisional que usa a coerção para manter sob controle os detentos, Alex enxerga num tratamento revolucionário a possibilidade de encurtar o cumprimento de sua pena. Trata-se de um tratamento que ilustra com bastante clareza o paradigma do condicionamento respondente, ao mesmo tempo que cria a oportunidade para que possamos discutir a eficácia da punição como meio para a modificação de comportamentos.

Por possuir um perfil bastante agressivo Alex é escolhido para ser submetido ao tratamento, sendo, então, transferido para uma clínica em que é colocado sob os cuidados de uma equipe médica. O tratamento consiste em assistir filmes com cenas explícitas de violência enquanto um medicamento que provoca uma terrível sensação de náusea é administrado. Veja o esquema abaixo:

Veja a semelhança com o experimento realizado por Pavlov no estudo do condicionamento respondente:
No experimento de Pavlov o estímulo incondicionado, ou seja, o estímulo que provoca a resposta reflexa de salivação, uma resposta que ocorre sem a necessidade de aprendizagem, é a comida. No experimento realizado com Alex o medicamento cumpre a função de estímulo incondicionado. Após a associação temporal entre o alimento e a campainha no arranjo experimental construído por Pavlov, o som passou a adquirir a função de estímulo condicionado, provocando, desta forma,  a resposta de salivação quando apresentado. Já na experiência ao qual Alex foi submetido, as cenas de violência exibidas nos filmes que ele foi obrigado a assistir, adquiriram a função de provocarem a resposta reflexa de náusea, ou seja, adquiriram a função de estímulos condicionados. Para maiores detalhes sobre o condicionamento respondente, é interessante ler outro artigo deste blog intitulado: "O condicionamento respondente: definição e aplicações."

Era esperado com a realização do tratamento que Alex se sentisse mal todas as vezes que se engajasse em um comportamento violento. E de fato isso aconteceu. Depois de sair da prisão Alex se sente mal em inúmeras oportunidades em que tem a chance de se engajar em comportamento violento ou quando presencia alguma cena de violência. As fortes sensações de náusea sentidas por Alex o incapacitavam de cometer atos de violência. Enquanto estava ocupado sentindo náuseas ele não podia se engajar em comportamentos violentos. Trata-se aqui de incompatibilidades entre comportamentos do mesmo repertório comportamental, e venciam aqueles comportamentos que tinham maior força. No caso de Alex, venciam as náuseas, e para se esquivar de senti-las era necessário não cometer nenhuma violência.

Na história de Alex também é possível ver operar o reforçamento negativo. Engajar-se em atos de evitação da violência permitia que as punições fossem evitadas. As respostas reflexas sentidas como náuseas eram ao mesmo tempo um exemplo de comportamento respondente eliciado por cenas de violência, como eram também a consequência de comportamentos que tinham como objetivo a prática de ações violentas. As náuseas puniam os comportamentos de cometer violência, impedindo-os de acontecerem enquanto o estímulo aversivo "enjoos" estivesse operando. Em última instância, o corpo e os comportamentos de Alex eram suas fontes de punição. Ele não podia fugir de si mesmo, então, o melhor seria esquivar-se da violência. O esquema abaixo sintetiza a análise dos operantes de Alex:


Mas como era de se esperar o tratamento teve alcance limitado, pois logo as respostas reflexas de náusea foram se extinguindo, e as cenas de violência que sinalizavam a possibilidade de punição acabam perdendo esta função de sinalização, ou seja, perdem a função de serem estímlos discriminativos que sinalizam a ocorrência de punições. Se tais cenas perdem a função de estímulos condicionados no eliciamento das respostas reflexas de náusea, os comportamentos de violência têm a chance de ocorrerem sem serem punidos, pois também perdem a função de eliciarem as sensações de desconforto que atuavam como punição. Esta é uma questão clássica, ou seja, estímulos aversivos condicionados vez ou outra precisam ser pareados com o estímulo punidor incondicionado, caso contrário perdem a função de punidores ou de sinalizadores de punição.

No caso de Alex, seus comportamentos de cometer violência eram ao mesmo tempo estímulos condicionados para as respostas reflexas de náusea, sinalizadores de ocorrência da punição (náusea) e também eram punidores e geradores da punição que era sentida com o grande desconforto que acompanhava as crises de náusea. Quando é desfeito o condicionamento respondente, ou seja, quando as cenas de violência e os comportamentos de se engajar em violência perdem a função de eliciarem as respostas reflexas de náusea, os comportamentos violentos perdem também a função de punidores e sinalizadores de punição, ao mesmo tempo em que cometer violência deixa de ser punido pela ocorrência dos desconfortos. Neste sentido, o filme evidencia duas coisas muito importantes: 1) Um programa de modificação de comportamentos não deve se limitar à ocorrência dos comportamentos respondentes e nem deve 2) fazer uso de punição. A punição tem efeitos colaterais nocivos, e a sua eficácia em suprimir comportamentos dura enquanto o estímulo aversivo estiver presente. Além do mais, os estímulos aversivos condicionados precisam ser pareados habitualmente com estímulos aversivos incondicionados para não perderem a função de punidores.

Um pai que ameaça o filho com uma chinela nas mãos, vez ou outra precisa dar uma chinelada para que a chinela continue funcionando como estímulo sinalizador de punição ou ainda como estímulo punidor. Mas este mesmo pai ao usar de punição está sujeito aos efeitos colaterais que ela gera: contracontrole, ansiedade, medo, submissão etc. No caso de Alex, para que as náuseas continuassem funcionando como punição para os comportamentos de se engajar em violência, as cenas de violência teriam que ser pareadas ocasionalmente com a medicação, ou seja, ele teria que ser submetido de vez em quando a novas sessões do tratamento. Mas os efeitos do tratamento foram terríveis, pois transformaram Alex em um sujeito submisso e temeroso dos desconfortos que podiam ser sentidos a qualquer instante.

Melhor seria se Alex tivesse a oportunidade de acessar fontes de reforçamento positivo todas as vezes em que se engajasse em comportamentos mais funcionais. Aí estaríamos falando de um programa de modificação de comportamentos que também contemplaria a análise funcional dos operantes de cometer violência, ou seja, que contemplaria a função exercida por tais comportamentos, um programa que fosse capaz de analisar as variáveis responsáveis pela manutenção dos comportamentos violentos, e que não se limitasse somente a aplicação de técnicas de condicionamento respondente, que acima de tudo foram altamente intrusivas e tiveram resultados questionáveis, pois fizeram utilização de controle coercitivo. 

Se o filme ilustra bem o paradigma do condicionamento respondente e os efeitos nocivos da utilização do
controle aversivo, ele não serve para ilustrar a proposta da Análise do Comportamento e de sua filosofia, o Behaviorismo Radical. A Análise do Comportamento não defende o uso do controle aversivo, pois este tipo de controle tem consequências bastante nocivas. A respeito do controle comportamental, é sugerido o seguinte texto: "Controle Comportamental: algumas considerações". A Análise do Comportamento estuda o controle aversivo como forma de demonstrar as consequências que ele produz, e como forma de demonstrar que há outras alternativas muito mais viáveis. Um bom programa de modificação de comportamentos envolve a análise funcional dos comportamentos que se quer modificar e não somente a aplicação de técnicas para modificações comportamentais. Para aprofundar nesta questão, aconselho a leitura do seguinte texto deste blog: "Por que a Terapia Comportamental é Comportamental?".

Voltemos ao filme. Como no experimento de Pavlov em que o som perdeu a função de eliciar a resposta reflexa de salivação ao ser apresentado sozinho, ou seja, ao ser apresentado sem que fosse pareado com a alimentação, as cenas de violência deixaram de eliciar as respostas reflexas de náusea quando o pareamento entre elas e a medicação foi rompido. Ocorreu, então, uma extinção das respostas reflexas condicionadas de náusea. Este pareamento foi rompido quando Alex foi submetido a diversas ocasiões de violência ao sair da prisão. Quando, por exemplo, os antigos amigos de gangue que se tornaram policiais o agrediram, ou quando foi obrigado a ouvir a nona sinfonia de Beethoven na casa do escritor que ele agredira no início do filme. A nona sinfonia de Beethoven também adquirira a função de estímulo condicionado quando no experimento foi tocada como a música de fundo enquanto Alex assistia às cenas de violência.

Não suportando os efeitos provocados pela nona sinfonia de Beethoven, Alex se joga do terraço do quarto em que se encontrava. Depois disso vai parar num hospital todo quebrado. Enquanto jazia em uma cama de hospital, um médico e uma enfermeira tinham relações sexuais em uma cama ao lado. Em todas estas situações Alex vai sendo exposto a cenas de violência sem que elas fossem pareadas com o estímulo incondicionado. Por isso perdem sua função de eliciarem as respostas reflexas de náusea. O filme termina com Alex imaginando uma cena de sexo selvagem, o que demonstra que se engajar em atos de violência não mais funciona como estímulo condicionado para eliciar respostas reflexas de náusea e também como fonte geradora de punição.

Portanto, o tratamento ao qual Alex foi submetido revelou-se um fracasso total. Também pudera, pois além de coercitivo foi desprovido da realização de qualquer análise funcional dos comportamentos de se engajar em violência. Sem uma uma boa análise funcional qualquer procedimento utilizado para modificar quaisquer comportamentos tem uma grande chance de ser ineficaz.

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terça-feira, 16 de abril de 2013

Textos, Contextos, Pretextos e Protestos


“Um texto fora do contexto vira pretexto para protestar.” Este ditado popular nos informa algo muito importante sobre a comunicação, um fenômeno tipicamente humano, pois só os homens possuem comportamento verbal, e com ele podem descrever as contingências que modelam os seus comportamentos e os comportamentos das pessoas com quem se relacionam. A questão é que nem sempre as descrições que são feitas das contingências são de fato fiéis a elas e isso leva a erros de percepção, ou melhor dizendo, levam a erros comportamentais, pois as pessoas podem agir com base em suas descrições e desconsiderarem as contingências de reforço.

O ditado também informa que o contexto de um texto ajuda a dar sentido à narrativa. Opa, narrativa é comportamento humano. Comportamentos humanos, verbais ou não, ocorrem em contextos, e estes contextos estabelecem com os comportamentos relações de causalidade, aumentando ou diminuindo suas probabilidades de ocorrência. Este tipo de relação de causalidade é conhecido como controle de estímulos. Isso significa que o comportamento, pelo menos no caso do comportamento operante, é causado pelas consequências que produz e pelos contextos em que ocorre. Esta teorização é a materialização da famosa contingência de reforço, conceito que indica que consequências e contextos exercem controle sobre o comportar-se.

Textos e contextos, outra forma de dizer: comportamento e controle de estímulos. Outra forma de dizer que entenderemos mais claramente um comportamento quando olharmos para os contextos em que ocorrem. Se a narrativa sobre um comportamento  descontextualiza-o do contexto em que ocorre, somos privados de informações importantes sobre as variáveis relacionadas à sua emissão, o que leva a enganos de percepção, pois podemos acreditar que alguém agiu de determinada forma quando na verdade os motivos são outros completamente diferentes.

Imagine que você convide uma pessoa para ir ao museu. Vocês passeiam pelas galerias durante horas sem que a pessoa emita nenhuma palavra. Você certamente acha estranho e pode pensar: “que pessoa antipática, não deu nenhuma opinião sobre nenhuma das obras que estavam em exposição”. Este é um julgamento, uma tentativa de explicar o comportamento de não emitir nenhuma palavra a respeito das obras expostas no museu. O problema deste julgamento é que ele não considera as contingências de reforço responsáveis pelo comportamento do convidado de passeio. Esta pessoa conhece alguma coisa sobre obras de arte? Imagine que você é um crítico de obras de arte e esta pessoa não saiba nada a respeito. Ela pode se sentir constrangida e evitar qualquer comentário por temer as críticas que podem ser feitas. Trata-se de um comportamento de esquiva que evita possíveis punições. Outra causa possível para o seu comportamento é não conhecer nada sobre obras de arte.


Se ela não conhece nada sobre obras de arte, não tem em seu repertório comportamentos apropriados para emitir qualquer tipo de comentário. Em outras palavras, o contexto “museus com suas obras de arte” não exerce nenhum controle especial sobre os comportamentos que constituem o seu repertório comportamental. Ora, como ela vai então emitir qualquer comportamento verbal a respeito das obras? O rótulo “antipático” adjetiva o comportamento do convidado especulando sobre as causas relacionadas à sua emissão. É uma descrição de contingências descontextualizada, que não leva em conta o controle do contexto sobre o comportamento. Se levado a sério, o rótulo pode ser tomado como verdade e daquele episódio em diante se transformar em pretexto para não convidar a pessoa para outros tipos de passeios, produzindo até mesmo um afastamento, pois ele sinaliza que aquela relação é aversiva ou pouca reforçadora. O rótulo age como estímulo discriminativo sinalizando a ocorrência de possíveis consequências aversivas.

Um pacifista e defensor dos direitos dos animais pode se rebelar ao ver alguém chutando um cachorro na rua. Pode mover um processo contra o agressor. Pode denunciá-lo às autoridades competentes. Enfim, pode fazer muitas outras coisas. A questão é que este pacifista pode ter visto apenas parte da cena. Às vezes o cachorro tenha avançado sobre a pessoa e num ato de autodefesa ela acabou chutando-o. Por ter visto apenas parte da cena o pacifista acabou descontextualizando o comportamento de chutar o cachorro do contexto em que ele ocorreu e transforma o que viu em motivo para a realização de um protesto sem medidas.

Os dois exemplos ensinam que devemos ter cuidado com o que vemos e com o que ouvimos. Sobretudo, eles nos ensinam que devemos ter cuidado com o que falamos. Será que o que falamos é fiel às contingências responsáveis pelos comportamentos das pessoas com quem nos relacionamos, ou procedemos de modo a descontextualizar o que as pessoas fazem para privilegiar apenas a nossa percepção da situação? Dependendo da resposta à pergunta corremos o risco de nos conscientizarmos de que somos tagarelas que criam pretextos para protestar por motivos tão pequenos e banais, transformando, assim, nossas relações em infernos existenciais.

Há outro ditado que diz que "boca fechada não entra mosquito." Melhor manter a boca fechada do que protestar sem motivos e correr o risco de engolir mosquitos!


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