quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Análise do Comportamento de Blogar e Algumas Dicas para Blogueiros Iniciantes (Primeira Parte)

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

Entendo como comportamento de blogar todos os comportamentos envolvidos na criação e manutenção de um blog. Também faz parte desta classe de comportamentos aqueles comportamentos de acompanhar as atualizações de determinados blogs e interagir com os proprietários dos mesmos (blogueiros). O que é um blog? Um blog é um espaço na internet que de maneira simples permite o registro de textos que podem tratar de variados assuntos a gosto do blogueiro que o criou. Há diversos tipos de blogs: científicos, de poesias, políticos, para divulgação de produtos, etc. Sendo assim, um blog tende a dirigir-se a um público específico, e é com esse público que o blogueiro costuma manter relações. A recíproca também é verdadeira, ou seja, os seguidores de um blog geralmente mantêm com o blogueiro algum tipo de relação.

O que interessa saber é que estas relações criam contingências de reforço que reforçam comportamentos de ambas as partes. Um blogueiro só cria um blog com a intenção de atingir um determinado público. Na internet há públicos para todos os gostos, mas é preciso saber como atingir cada público em particular. As informações que um blogueiro disponibiliza em um blog produzem contingências de reforço que afetam os seus leitores. Da mesma forma, quando os leitores fornecem ao blogueiro algum feedback, seja através dos espaços para comentários, ou através de outros contatos, esse feedback contribui para reforçar os comportamentos do blogueiro, ou produzem estímulos discriminativos que sinalizam para mudanças que precisam ocorrer para que o blog possa cumprir sua missão.

Como na vida real o mundo virtual não está livre das leis que regem o comportamento humano. Operações de reforçamento também são estabelecidas na web. Saber criar contingências de reforço que afetem o público-alvo de um determinado blog é uma forma de cativar este público e fazer com que o mesmo volte a visitá-lo e também o divulgue em outros círculos que o blog dificilmente atingiria de forma direta. Portanto, seguem algumas dicas que podem ajudar a criar estas contingências.

1 - Cuide do Visual do Seu Blog

Imagine a seguinte situação: você é convidado para visitar a casa de um amigo que acabou de conhecer. Quando chega em sua casa encontra roupas e sapatos jogados para todos os lados. Encontra talheres e panelas sujas empilhadas na pia da cozinha. Ao entrar no banheiro percebe que o cesto de roupas sujas está transbordando. Qual será a sua impressão? Provavelmente a impressão não será muito boa, e a mesma  será acompanhada de um sentimento de repulsa, de uma vontade de sair correndo daquele lugar (comportamento de fuga).

O mesmo pode acontecer com um blog. Por isso o visual deve ser algo que preocupe um blogueiro. É muito comum navegarmos na internet e encontrarmos blogs em que imagens vão além dos limites disponíveis para as postagens de textos ou para a distribuição de gadgets. Gadgets são aqueles dispositivos que ficam nas colunas laterais dos blogs. Nestas colunas é comum encontrarmos os seguidores, um tradutor, contador de visitantes, menu de últimas postagens, menu de postagens populares, etc. Também é comum encontrar imagens publicitárias. Em blogs em que não existe cuidado com o visual há um excesso destas imagens e muitas vezes elas costumam transpor os limites das colunas, o que visualmente causa uma péssima impressão.

O visual do blog pode ser atrativo ou repulsivo. Pode estabelecer contingências de reforçamento positivo ou negativo, por isso todo cuidado com esse quesito é essencial. Outra coisa importante é que o visual conta muito na hora do carregamento da página. Uma página que demora a carregar tende a afastar visitantes. Não queremos os visitantes longe de nossos blogs, ao contrário, queremos que eles conheçam nosso trabalho.Você pode minimizar este problema usando o recurso de apresentar apenas resumos de suas postagens na página inicial do blog. Se você não sabe fazer isso clique aqui. Existe ainda a opção de diminuir o número de postagens na página principal. Veja a imagem abaixo:




Vá em "configurações" e depois clique em "postagens e comentários". Em seguida vá até "Mostrar no Máximo". Neste campo você escolhe quantas postagens vão aparecer na página principal do blog. Essas configurações são válidas para a plataforma blogger. Vejam que no Café com Ciência aparecem 11 postagens. Mas como uso o recurso do resumo de postagens, na verdade só aparecem o resumo dos textos que posto com sua foto principal. A vantagem de utilizar este recurso é que ele apresenta apenas parte do texto, se o leitor quiser continuar a leitura deve clicar em "Leia mais". Dessa forma é possível manter o leitor mais tempo no blog e aumentar as chances de que ele tenha contato com textos completos, como também aumentar as chances de visitar outras páginas do blog.

2 - Cuide do Conteúdo do Seu Blog

Pessoas visitam blogs não somente por causa da estética. Estética (visual) é importante, mas não é tudo, não é o principal fator que atrai pessoas para um blog. Conteúdo é o principal fator. Cuide do conteúdo do seu blog. Procure produzir conteúdos originais. É muito comum encontrarmos na blogosfera muitos blogs que são cópias uns dos outros. É bom lembrar que plágio é crime!!! Produza seu próprio conteúdo.

Mas você deve estar se perguntando: sobre o que devo escrever? Há uma infinitude de assuntos sobre o qual se pode falar. Todavia, é recomendável que um blogueiro fale sobre algo que tem algum domínio, assim aumenta as chances de produzir conteúdo original, de produzir algo que não pode ser encontrado em outros blogs. Se um visitante encontra em um blog algo que não consegue encontrar em outro que trata dos mesmos temas, é mais do que esperado que ele passe a seguir o primeiro blog. Conteúdo não encontrável em outros blogs é altamente reforçador!

A opção do Café com Ciência é produzir conteúdos sobre Análise do Comportamento e Behaviorismo Radical. Há diversos blogs que tratam do mesmo tema. O diferencial do Café com Ciência é produzir textos em uma linguagem bastante acessível, textos que evitem o excesso de jargão técnico, algo que pode ser aversivo aos neófitos, aos que não dominam a Análise do Comportamento e seus principais conceitos. O Café com Ciência não é melhor que os outros blogs que tratam da mesma temática, mas tem uma forma diferente de apresentá-la. Aliás, o Café com Ciência é parceiro destes outros blogs, pois estas parcerias só enriquecem o trabalho de um blogueiro.

3 - Cuide Bem dos Parceiros do Seu Blog

Os parceiros são aqueles sites ou blogs que geralmente tratam da mesma temática. São importantes meios através do qual um blogueiro pode divulgar o seu trabalho. Os parceiros costumam indicar o trabalho de um blogueiro para outros blogueiros e outros círculos de pessoas que originalmente o blog dificilmente atingiria. Estabalecer com os parceiros do seu blog uma relação amistosa é fundamental para o seu sucesso!

Mas não precisamos nos limitarmos a estabelecermos parcerias apenas com blogs e sites que tratam da mesma temática. Outros parceiros de outros nichos também podem ajudar na divulgação. O importante é ter cuidado para não estabelecer parcerias com sites e blogs que tenham conteúdos ilegais, pois isso pode associar a imagem destes blogs ao seu. Essa associação poderia tornar seu blog aversivo. É tudo uma questão de contingências de reforço. Estímulos aversivos associados a estímulos previamente neutros, faz com que estes últimos também se tornem aversivos.

Reseve em seu blog um espaço para divulgar o trabalho dos seus parceiros, pois certamente eles farão o mesmo por você. Diferente de websites é sabido que um blog não tem muito espaço. A opção para economizar espaço é através da criação de banners rotativos. Clique aqui e seja direcionado para um blog que ensina como fazer esse tipo de banner. Mas talvez você nem tenha criado ainda um banner para seu blog. Então, clique aqui para aprender como fazer isso. Ao clicar você será direcionado para o blog do "Gerenciando Blogs". Considero esse um dos melhores blogs para se aprender como gerenciar um blog.

Um banner é uma forma prática para divulgação de seu blog, e através dele você pode estabelecer boas parcerias de maneira bastante simplificada. Além do mais, um banner é um estímulo visual que tem grandes chances de chamar a atenção de leitores, e quando bem alojados nas páginas dos parceiros, podem ter um efeito muito interessante sobre o fluxo de visitantes do seu blog. Divulgue os banners de seus parceiros, pois esta é a melhor forma de reforçar os comportamentos que mantém a relação deles com você.

4 - Cuide Bem dos Visitantes do Seu Blog

Entre os visitantes estão aqueles que acessam o blog pela primeira vez ou os que já visitaram anteriormente e volta e meia retornam para novas visitas. Cuidar bem dos visitantes é uma forma de aumentar as chances de que retornem ao blog. Seguindo os passos citados acima você já está fazendo isso. Todavia, seguir esses passos não é suficiente. É necessário que você se dedique a dar atenção aos seus visitantes.

A melhor forma de fazer isso é sendo cordial e atendendo às suas solicitações. Geralmente visitantes interagem com um blogueiro através do campo de comentários. Neste campo eles postam o que acharam dos textos que puderam ler no blog. Responder a estas postagens é uma forma de cativar seus visitantes, é uma forma de reforçar o comportamento de visitar o blog. Reforço positivo é sempre bem-vindo!

Arranje um tempo para comentar as postagens de seus visitantes. Se for criar um blog e não tiver esta disposição, então, é melhor nem criar. Não comente por comentar. Comente demonstrando que você foi atencioso ao conteúdo da postagem. Logicamente você não precisa concordar com o que dizem seus visitantes. Mas mesmo na hora de discordar vale a pena a lei da cordialidade, afinal de contas até os visitantes que discordam têm algo a acrescentar. É verdade que nem todos têm algo a acrescentar, mas isso não é motivo para transformar seu blog em um espaço de discórdias.

Seus visitantes poderão sentir que você está sendo atencioso se adicionar em uma das colunas laterais um gadget sobre comentários recentes. Se não sabe como fazer isso clique aqui. Dessa forma os últimos comentários aparecerão na coluna em que o gadget for adicionado. Assim você reforça o comportamento de participação de seus visitantes, como também gera estímulos discriminativos que incentivarão outras pessoas a comentarem nas postagens do seu blog.

Uma forma de facilitar a interação entre visitantes e blogueiros é configurando bem as opções de postagens e comentários. No blogger isso é feito clicando primeiro em "configurações" e depois em "postagens e comentários". Veja a imagem abaixo:

A imagem é um print das configurações que utilizo. A esquerda você verá os campos "Configurações" e "Postagens e Comentários". É onde você deve ir para configurar as opções de comentários a serem postados pelos visitantes. Você tem a opção de moderar os comentários, ou seja, eles só aparecerão em seu blog depois que você autorizar. Não é muito aconselhável. Quem posta num blog espera ver imediatamente seu comentário postado. Reforço positivo contingente ao comportamento de comentar acaba por fortalecer este comportamento. Filtrar comentários dificulta a interação com os visitantes. Eu uso opção nunca moderar comentários e isso vocês podem verificar acima.

Outra configuração que utilizo é deixar os comentários abertos para qualquer um que queira postar, inclusive usuários anônimos. Esta opção desobriga os seus visitantes a terem uma conta compatível com o blogger como o yahoo ou gmail. Mesmo que os visitantes não tenham nenhuma dessas contas poderão comentar no blog. Também não utilizo a verificação de palavras, aquela caixinha com letras e números para as pessoas digitarem antes de postarem, pois isso tende a desistimular o visitante a postar. E ultimamente as letras estão cada vez mais difíceis de serem identificadas.

Logicamente que estas configurações podem gerar inconvenientes. Você estará sujeito a ter que enfrentar comentários que pouco contribuem para o blog. Você pode entrar na onda dos trolls ou ignorá-los, ou seja, reforçar seus comportamentos ou extingui-los. Só não transforme seu blog num campo de guerra. Escolha as configurações que gerem menos aborrecimentos e que mais se adaptem ao seu blog. O importante é facilitar a vida dos visitantes.

5 - Conclusão

Cuidar de um blog não é fácil, mas pode ser muito gratificante. Um blog pode ser um interessante meio para a divulgação de informações que sejam úteis para uma parcela significativa de usuários da internet. Neste texto você encontrou algumas dicas de como influencar os comportamentos dos visitantes de um blog à luz da Análise do Comportamento. Existem outras dicas, mas vamos parar por aqui. Deixemos essas outras dicas para outros posts que darão continuidade a este texto.

Espero que o leitor possa fazer bom proveito das dicas!

Outros artigos semelhantes a este? Abaixo você encontra outras indicações de leituras do Café com Ciência, não deixe de conferir.


-->
Leia mais...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Ditados populares: uma análise comportamental

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

Ditados populares são expressões de uso comum em uma dada população. São usados para fazer referência a modos de agir que quando evitados ou promovidos acarretam em determinadas consequências. Portanto, servem como sinalizadores de consequências, como descrições de contingências de reforço. Como descrições de contingências de reforço podem dizer muito sobre uma determinada cultura e sobre os modos de agir de um povo, afinal de contas uma cultura é um conjunto de contingências de reforços que agem umas sobre as outras e determinam a maneira como grupos de pessoas se comportam. Se os ditados populares sobrevivem como práticas culturais, é sinal que descrevem contingências importantes para a sobrevivência da cultura. Abaixo serão transcritos alguns ditados populares e será apresentada uma possível análise que se pode fazer deles.

Quem com ferro fere, com ferro será ferido. Poderíamos dizer assim: quem pune também está sujeito a ser punido. Coerção gera coerção. Coerção é o uso de punição ou a ameaça de uso de punição. Habitualmente pensamos que punição elimina comportamento. Mas não é bem assim que acontece. Punição suprime temporariamente o comportamento punido. Todavia, os efeitos emocionais colaterais gerados pelo uso da punição podem ser devastadores: ansiedade, medo, submissão, tristeza, raiva, etc. Outro efeito é que o punidor se torna uma fonte de punição, algo a ser evitado ou contra-atacado. Então, punicão gera comportamentos de contracontrole, ou seja, comportamentos de atacar a fonte geradora de punição. A temática da punição já foi analisada extensamente em outros posts. Para ter acesso a estes posts clique aqui. Um post em especial eu recomendo aos leitores: "Prisões e punições: algumas reflexões preliminares." Evitar o uso desnecessário de punição é fundamental para que tenhamos relações interpessoais que promovam o bem estar.

Galinha que acompanha pato morre afogada. É lógico que a galinha vai acabar morrendo afogada se acompanhar um pato, pois ela não tem o equipamento biológico (anatomia e fisiologia) de um pato para poder ter o mesmo desempenho na água. O mesmo acontece conosco. Somos todos diferentes uns dos outros. Podemos ter o mesmo equipamento biológico, mas há diferenças abismais entre nós, diferenças determinadas pela herança genética e também pela história de vida. Sobretudo, temos repertórios comportamentais bastante distintos uns dos outros, o que nos torna pessoas únicas. Se alguém for acompanhar um exímio nadador nas corredeiras de um rio pode acabar morrendo afogado, pois não tem em seu repertório comportamentos para saber nadar com destreza em correntezas. A pessoa pode até nadar bem em uma piscina, mas não terá o mesmo desempenho em rios com fortes correntezas. Saber reconhecer tais diferenças pode ser fundamental para a sobrevivência! Reconhecer que somos diferentes uns dos outros pode evitar muitos problemas! Sobretudo, respeitar as diferenças é fundamental para nos relacionarmos bem com o mundo ao nosso entorno.

A fruta proibida é mais apetecida. O que é proibido geralmente parece ter um gostinho especial. O que pode estar por trás da atração sentida pelo proibido são operações de privação. Se alguém está privado de reforçamento sexual, pode acabar buscando esse reforço de diferentes maneiras. Pode se sentir atraído por parceiros que nunca pensou cobiçar. Privação em excesso gera estimulação aversiva. O que puder ser feito para eliminar a estimulação aversiva acabará sendo reforçador. É preciso, então, muito cuidado ao lidarmos com privações, pois seus efeitos podem gerar tendências comportamentais que produzem muitos problemas. Privar nossos parceiros de afeto pode resultar em um esfriamento da relação. Privar nossos filhos de carinho pode resultar em relações pouco amistosas.

A união faz a força. Determinadas contingências de reforço podem ter seu poder maximizado se forem capazes de atingirem mais pessoas num intervalo maior de tempo. Isso pode ser conseguido através do comportamento grupal. O comportamento de um grupo pode ser muito mais efetivo do que o comportamento de pessoas agindo individualmente. Imagine pessoas se mobilizando para combater a pedofilia. A campanha vai ter mais resultados quanto mais ela for divulgada. Quanto mais pessoas contribuírem na divulgação, maiores são as chances de outras pessoas serem sensibilizadas. Quanto mais pessoas envolvidas na divulgação, maior é a probabilidade de que a campanha se mantenha nos meios de comunicação por mais tempo. Isso nos faz lembrar que podemos e devemos contar com os outros, pois não temos a capacidade de fazermos tudo sozinhos!

A ignorância é a mãe de todas as doenças. Alguém pouco consciente das consequências de seus comportamentos está mais sujeito a aborrecimentos. Certamente está mais sujeito a envolver-se com problemas que podem acarretar em prejuízos para a saúde. Tomar consciência das contingências de reforço que movem nossos comportamentos pode ter como resultado uma vida mais saudável. Dessa forma, poderemos manipular as contingências e diminuir a probabilidade de comportamentos que produzem problemas e aumentar a probabilidade de comportamentos que produzem benefícios. Mas a consciência, que é comportamento descritivo, só surge quando a comunidade verbal arranja as condições apropriadas. Portanto, estar atento ao que os outros nos dizem ou aos seus questionamentos, é fundamental para termos mais consciência acerca de nós mesmos.

Não vamos aumentar demasiadamente nossa lista de ditados. Os que foram apresentados são suficientes, pois são capazes de demonstrar que os ditados populares podem nos fornecer pistas importantes sobre as contingências de reforço em vigor em uma determinada cultura. Os ditados podem fornecer pistas importantes sobre como as pessoas pensam, agem e sentem. E por serem importantes eles têm sobrevivido enquanto práticas culturais. Analisá-los pode nos ajudar a entender determinadas práticas culturais comuns em uma dada cultura.

E você, usa muitos ditados populares? Cite nos comentários algum ditado que você conheça e apresente sua análise a respeito.

Outros artigos semelhantes a este? Abaixo você encontra outras indicações de leituras do Café com Ciência, não deixe de conferir.



-->
Leia mais...

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Educação para o mundo virtual: discutindo o papel da escola

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

O mundo está em constate transformações. A certeza que temos hoje é que o mundo tal como o conhecemos agora não será mais o mesmo amanhã, e não há nenhum exagero em pensar assim, pois a todo instante estão ocorrendo eventos que têm o potencial de mudar para sempre o curso da história. E o mais impressionante é a velocidade com que estes eventos são divulgados. Tudo isso graças a algo que conhecemos como internet.

A internet foi uma das mais fabulosas inovações tecnológicas criada pelo bicho Homem. Ela agilizou as comunicações e aproximou pessoas. Ela transformou negócios e criou novos nichos de mercado. Criou meios para divulgação do conhecimento que eram inimagináveis há algumas décadas. Hoje é possível estar a par das principais descobertas científicas apenas com alguns poucos cliques. A internet criou a possibilidade das escolas virtuais e do ensino a distância. Ela aproximou cientistas, aproximação que acelera o processo de produção de conhecimento científico. E contribuindo na divulgação deste conhecimento ela acaba favorecendo a democracia, pois o princípio mais básico dos regimes democráticos é o acesso à informação.

Portanto, a internet é um instrumento formidável! Mas... Sim, sempre existe um "mas"! Duas questões precisam ser pensadas: a forma de se utilizar esse incrível instrumento que é a internet e as consequências de sua utilização sobre o comportamento das pessoas. Começemos pela primeira questão: as pessoas sabem utilizar a internet?

A julgar pela forma como as redes sociais são utilizadas, é temoroso afirmar que sabemos usar a internet e todo o potencial comunicativo que elas nos oferece. Redes sociais na maior parte do tempo são utilizadas para o compartilhamento daquelas entendiantes correntes de ajuda, daquelas correntes que apelam para o coração bondoso das pessoas solicitando doações de cinco centavos para o compartilhamento de fotos de pessoas doentes. Escrevi sobre isso recentemente no artigo intitulado "Redes Sociais e Correntes de Ajuda: uma análise comportamental."

Levantei naquela ocasião a hipótese de que este comportamento das pessoas na internet tem relação com nosso sistema educacional. Gostaria neste texto de desenvolver melhor este raciocínio. Nosso sistema educacional não tem acompanhado na mesma velocidade as inovações tecnológicas que ocorrem no seio da sociedade. Pelo menos no que se refere ao ensino público isso pode ser considerado uma verdade. Mas mesmo no ensino privado não vamos encontrar em todas as escolas aulas de informática e laboratórios de computadores.

Muitas escolas da rede privada já dispõem de inúmeras tecnologias. Em várias é possível encontrar o uso de tablets e notebooks em sala de aula em substituição ao tradicional caderno. Nestas escolas cadernos estão se transformando em peças de museu, sim aquele objeto com folhas de papel riscadas formando linhas para anotações já  vem sendo descartado. Haverá um tempo em que as pessoas saberão o que é  um caderno?

Na rede pública muitos alunos não sabem o que é um caderno também, mas não porque eles estão sendo substituídos pelas maravilhas tecnológicas do universo da informática, e sim porque comprar um caderno requer sacrifícios que afetam o orçamento familiar. Em muitas escolas públicas carteiras e cadeiras são artigos de luxo. Na maioria delas o quadro negro continua sendo verde, e muitas vezes está em péssimo estado de conservação. Em tantas outras falta giz para se escrever no quadro e os professores acabam improvisando.

Já em algumas se vê iniciativas tímidas para o ensino de informática, mas ainda são excessivamente tímidas. O poder público ainda não se atentou para a urgente necessidade do sistema educacional acompanhar as mudanças que ocorrem no seio da sociedade. Se não houver este acompanhamento a educação de nossas crianças estará sempre defasada, e elas não poderão desenvolver em seus repertórios comportamentos que as capacite para enfrentar as contingências que vão além dos muros escolares.

Mas não basta equipar as escolas com computadores. Isso simplesmente não resolve o problema. Equipar as escolas é uma parte da resolução do problema. Depois de equipadas as escolas precisam rever seus currículos. Não adianta ter computadores com acesso à internet se os currículos escolares não criam contingências de reforço que venham a modelar comportamentos de como se comportar no mundo virtual. E a reforma dos currículos escolares é uma questão a ser enfrentada tanto pelo ensino público quanto pelo ensino privado.

Não estou querendo ser antiguado e defender que as escolas devam ensinar regras de etiqueta sobre como se comportar no universo infinito da web. Etiqueta não é o termo mais adequado. Mas as escolas devem ensinar não somente como abrir e fechar um navegador. Elas também devem ensinar o aluno a analisar as consequências que seu comportamento na internet pode produzir. Se isso for feito as redes sociais existentes na web poderão ser utilizadas para promover a expansão de contatos sociais e não simplesmente para o compartilhamento inconsequente de correntes de ajuda ou posts de disseminação de preconceitos.

E a expansão de contatos sociais não pode ser simplesmente uma questão de números, mas sobretudo uma questão de qualidade. Pessoas adicionam umas as outras em redes sociais para produzir números. Mas e a qualidade das relações? As relações permanecem na superficialidade, evitando-se, assim, contatos que afetivamente poderiam ser mais produtivos. A consequência disso é que a afetividade passa a ser vista como algo aversivo, como algo a ser evitado, pois pode causar problemas. Vejam aí o reforçamento negativo! A afetividade vai se associando ao controle aversivo, e assim a vida afetiva vai sendo encarada como fonte de problemas.

E aqui paramos um pouco para pensar nas consequências desta maravilhosa inovação tecnológica que é a internet sobre os comportamentos individuais e até mesmo coletivos. Será que a internet não tem transformado contatos sociais em números? Um contato é um número numa rede social... Outra questão preocupante: o acesso faciltado a inúmeras fontes de prazer criadas pela internet não tem gerado pessoas socialmente isoladas? Se posso buscar prazer na net, por que haveria de buscá-lo em contatos sociais genuínos?

Na internet impera a lógica da facilidade... Gerou problema se exclui com um clique! E será que essa lógica não vem sendo transposta para a realidade? Ou seja, quando alguém do meu contato social se transforma em fonte de problemas eu simplesmente não ajo de maneira a excluir a pessoa? Aqui não sou eu perguntando para mim mesmo. As perguntas são interlocuções que o leitor pode usar para refletir sobre o seu próprio comportamento.

Portanto, neste novo cenário mundial dominado pelas tecnologias da informação, o sistema educacional tem um papel fundamental, o papel de preparar pessoas para lidar com contingências de reforço que potencializam a possibilidade de reforçamento positivo, reforçamento que acaba sendo contingente a comportamentos improdutivos, como os comportamentos de passar o dia todo na frente de um computador, comportamentos que concorrem com outros comportamentos como o de trabalhar, estudar, namorar, etc. Reforço positivo contingente a comportamentos improdutivos gera a longo prazo uma sociedade formada por pessoas que não sabem lidar com as adversidades, pessoas que não sabem encarar frustrações, pois estão tão acostumadas aos prazeres fáceis produzidos com poucos cliques que acabam recuando diante as dificuldades.

É hora de pensarmos seriamente numa reforma curricular que dê mais espaço para as tecnologias da informação, mas que seja uma reforma que também pense os impactos destas tecnologias sobre o comportamento das pessoas e que as eduque para utilizá-las de maneira produtiva.

Gostou do artigo? Manifeste sua opinião!

Curso online de Psicologia Escolar

Outros artigos semelhantes a este? Abaixo você encontra outras indicações de leituras do Café com Ciência, não deixe de conferir.

-->

Leia mais...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Teologia da Prosperidade: contingências que conquistam fiéis

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

O que motiva a confecção deste texto é algo que me aconteceu por esses dias. Vasculhando a TV em busca de um programa assistível, deparei-me com algo bastante curioso, para não dizer temeroso. É sabido que cada vez mais as igrejas de um modo geral têm aderido aos meios de comunicação de massa, pois estes meios são bastante eficazes na conquista de novos fiéis. Mas para que a conquista possa de fato ocorrer, o produto ofertado ao telespectador deve ser bastante atraente. Em outras palavras, o produto deve ser bastante reforçador!

Ao vasculhar a TV parei em um destes programas evangélicos. Advinhem quem estava pregando? O pastor proprietário de uma das maiores redes de televisão do país. Isso mesmo, o "Bispo" Edir Macedo. Me chamou a atenção a pregação utilizada pelo Sr. Edir, digo senhor porque ele já é um homem maduro, um homem de idade razoavelmente avançada, e que por isso merece o meu respeito. Aprendi com meus pais que devemos respeitar as pessoas mais maduras, por isso ao Sr. Edir o meu respeito.

Respeito-o por seus cabelos brancos, mas me causa estranhamento a estratégia utilizada na captação de novos fiéis. Dizia o Sr. Edir que a igreja estava fazendo uma campanha. Num determinado dia o fiel deveria colocar num envelope uma quantia em dinheiro. Junto com o dinheiro devia colocar também a foto de alguém que precisava de uma grande graça de Deus, seja uma graça no âmbito da saúde, ou uma graça no âmbito financeiro. Então nesta lista entram doentes e endividados.

Mas o bispo não parou por aí. Ele foi além, e, sobretudo, foi enfático ao dizer que quanto maior fosse a doação maiores seriam as chances de que a graça fosse alcançada. É a mercantilização da fé sendo utilizada como estratégia para cativar novos fiéis, algo disseminado no Brasil desde a década de 1980 quando chegou em terras tupiniquins a teologia da prosperidade.

O Brasil é um importador de bens materiais e culturais norte-americanos. A teologia da prosperidade é um bem cultural importado. Ela nasce nos EUA no inicio do século XX, e na essência ela diz que ao fiel é reservado o direito à prosperidade. Mas inevitavelmente temos que questionar: prosperidade de quem, dos fiéis ou das igrejas? O que se vê é um crescimento vertiginoso das igrejas que utilizam a teologia da prosperidade como meio para conquistar novos fiéis. O patrimônio destas igrejas já passou da casa dos milhões há décadas. Grandes templos são construídos com uma facilidade inimaginável.

Prosperidade de quem? Certamente o Sr. Edir não pode reclamar de sua conta bancária, ele e tantos outros disseminadores da teologia da prosperidade. Mas por que a teologia da prosperidade enquanto estratégia para cativar novos fiéis acaba funcionando? Porque ela cria poderosas contingências de reforçamento positivo. Se durante muitos anos fiéis iam às igrejas para fugirem do inferno e para ganharem o paraíso, punições e recompensas utilizadas para a manutenção dos comportamentos de ir à igreja e professar os seus ensinamentos, agora eles vão para obterem ainda nesta vida recompensas materiais.

O leitor vai concordar que entre recompensas que podem ser obtidas nesta vida e aquelas que só podem ser desfrutadas num porvir, as obtidas nesta vida são muito mais atraentes, portanto, as igrejas que forem capazes de oferecê-las aumentam exponencialmente sua capacidade de conquistar novos fiéis, e consequentemente aumentam também sua arrecadação do dízimo, engordando, assim, a conta de pastores inescrupulosos.

Recompensas materiais são muito mais fascinantes (reforçadoras) que possíveis recompensas espirituais. Num mundo marcado pela concorrência as igrejas se transformaram em poderosos nichos de mercado. Para vencer a concorrência é necessário oferecer ao fiel (consumidor) um produto agradável (reforçador). Quer um produto mais agradável do que a prosperidade no âmbito da saúde ou das finanças?

As igrejas estão cada vez mais se adaptando à logica do capitalismo. Elas passaram a oferecer recompensas materiais, recompensas que podem ser desfrutadas ainda em vida, sem que seja necessário esperar por promessas de recompensas espirituais que venham se concretizarem numa outra vida. E o esquema por trás destas promessas de recompensas materiais geralmente é o de razão variável, quando mais o fiel doa, mais ele aumenta as possibilidades de receber.

Agora imaginemos uma situação fictícia. O cara está endividado e precisa resolver seus problemas financeiros. Ele começa a frequentar a igreja e pagar seu dízimo. Vez ou outra, ou vez em sempre participa das campanhas de doar dinheiro para a igreja. Se esse cara anteriormente gastava todo seu orçamento com muita farra, consumindo excessivamente, etc, para conseguir pagar seu dízimo em dia ele começa a abandonar a antiga vida. Ele deixa de farrear e consumir excessivamente. Com isso o dinheiro começa a sobrar todo mês. Sobrando é possível fazer uma economia e conseguir saldar as dívidas. É uma questão de contingências de reforço, ou seja, se o sujeito mudou seus hábitos, inevitavelmente os resultados serão diferentes daqueles obtidos com o estilo de vida que tinha anteriormente.

Mas isso acaba fortalecendo as contingências criadas pela teologia da prosperidade, pois o cara acaba pensando: "quanto mais eu doar, mais eu vou receber". Ora, vejam aí o esquema de reforçamento de razão variável produzindo os seus resultados... O resultado produzido é a regra que passa a governar diversos comportamentos do fiel, a regra da graça que é proporcional à doação. No final a prosperidade é de quem? Das igrejas ou dos fiéis? Fica a pergunta...

Outros artigos semelhantes a este? Abaixo você encontra outras indicações de leituras do Café com Ciência, não deixe de conferir.

-->

Leia mais...

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013

Um Ano de Café com Ciência

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

O blog Café com Ciência está fazendo um ano. É o momento propício para fazer um balanço de tudo que aconteceu ao longo do primeiro ano de existência do blog. Mas também é o momento propício para agradecer àqueles que têm contribuído para o seu crescimento: os seus leitores. Caríssimo leitor, é graças a você que o Café com Ciência se mantém em funcionamento, portanto, agradecer a sua visita frequente ao blog é justo e merecido.

Até o momento 22.708 pessoas visitaram o blog. São em média 1892 acessos por mês. Nada mal para um blog que tem apenas um ano de existência. Ao logo deste ano muitas matérias foram publicadas. Todas elas giraram em torno de um núcleo comum: o Behaviorismo Radical. O Behaviorismo Radical, cujo criador é B. F. Skinner, é a filosofia da ciência do comportamento, também conhecida como Análise Experimental do Comportamento. A Análise Experimental do Comportamento é um modo de estudar o objeto da Psicologia: o comportamento, um modo que utiliza como amparo metodológico o método experimental.

Ao longo deste ano o leitor que nos acompanha pôde conhecer os principais pressupostos teóricos do Behaviorismo Radical. Pôde entender qual é a proposta do Behaviorismo Radical para a Psicologia, uma proposta que rompe com o paradigma de causalidade mentalista. Este rompimento não significa que seja ignorado o mundo privado do indivíduo. Este mundo existe, mas não se difere do restante do mundo somente porque é privado. Este mundo não é mental por ser privado.

Sendo assim, podemos descobrir ao longo deste ano que o Behaviorismo Radical não ignora a subjetividade. Muitos artigos tiveram a temática da subjetividade como pano de fundo. Em alguns deles ela foi até mais evidente, principalmente quando as emoções foram analisadas sob a ótica do Behaviorismo Radical. Descobrimos que emoção é comportamento, em parte respondente, em outra operante.

Como respondente elas se manifestam por meio de modificações fisiológicas que se passam no organismo, e boa parte destas manifestações ocorrem de modo privado, e isso gera algumas dificuldades para que a comunidade verbal estabeleça contingências para que o indivíduo aprenda a falar de suas emoções. Estas dificuldades foram muito bem exploradas no artigo intitulado "A Difícil Tarefa de Falar de Sentimentos".

Como operantes as emoções estão sujeitas às suas consequências. Isso significa que as expressões emocionais podem ser modeladas, ou seja, que aprendemos a nos emocionarmos de determinada forma por causa das consequências que seguiram nossos comportamentos emocionais no passado. Portanto, a análise das emoções passa pela análise funcional das consequências e contextos em que os comportamentos emocionais ocorrem. Somente desta forma pode ser entendido o significado de cada emoção, de cada forma de expressão emocional. Mas certo é afirmar que as emoções dão pistas importantíssimas sobre as contingências de reforço que podem estar operando na vida de uma pessoa num dado momento.

Outros temas foram abordados ao longo deste ano. Um destes outros temas versou a respeito dos efeitos da punição sobre o comportamento. Muitas vezes pensamos que a punição é o meio mais eficaz de eliminarmos comportamentos, mas este é um grande engano. Além da punição não eliminar comportamentos, ela gera diversos subprodutos emocionais bastante nocivos à saúde. Você pode conferir a coletânea de artigos que trataram deste tema clicando aqui.

Enfim, muitos outros temas foram tratados em 2012. Muitos outros ainda virão. E para 2013 o Café com Ciência pretende lançar voos ainda mais altos. Pretende dialogar com outras áreas do saber e não ficar restrito somente à Psicologia. E uma dessas áreas que muito agrada ao seu autor é a Assistência Social. Esperem em 2013 um flerte entre o Café com Ciência e temas ligados à Assistência Social, afinal de contas a Assistência Social é mais um campo de trabalho aberto ao profissional da Psicologia.

Aguarde, pois muito mais está por vir! E continuem ligados no Café com Ciência, que está de aparência nova para melhorar sua experiência de navegação. E aproveite também para curtir nossa Fanpage no facebook: https://www.facebook.com/BlogCafeComCiencia.

Obrigado pela colaboração!


Leia mais...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Redes Sociais e Correntes de Ajuda: uma análise comportamental

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

Fala sério, não tem nada mais entendiante do que ter que tolerar aquelas correntes de ajuda que as pessoas compartilham via redes sociais. Digo entendiante para não ter que usar outro adjetivo que possa fazer com que meus leitores sintam-se insultados, afinal de contas eles merecem todo o meu respeito. A moda agora é acreditar que o facebook vai doar uma quantia em dinheiro para o compartilhamento de certas imagens, e é bom que se ressalte que em sua maioria são imagens muito grotescas: crianças doentes, pessoas em situação de calamidade social, entre outras.

Agora tem também a modinha do "sou defensor" dos direitos dos animais. Aí os defensores dos pobres animais para demonstrarem seu "espírito de solidariedade", compartilham imagens que prometem alguns poucos centavos para entidades que defendem estas criaturas. As consequências destas correntes são diversas. Há quem critique abertamente, há quem saia compartilhando, há quem envie indiretas etc. A questão é que de uma forma ou de outra as correntes acabam se proliferando.

Quetiona-se: que contingências estão por trás da manutenção destes comportamentos? Hipótese número um: o que importa é a aparência e não a ação. O fenômeno internet no Brasil é algo bastante recente. É algo que começou a ganhar volume em meados da década de 1990. As pessoas não foram educadas para saberem utilizar os meios de comunicação criados com a internet. Por conseguinte, não estavam preparadas para lidarem com a visibilidade proporcionada por estes meios de comunicação.

E não se pode negar o quanto estes meios de comunicação proporcionam visibilidade, o quanto têm o poder de tornarem público aquilo que é da esfera privada. E quando o privado é tornado público muito ibope acaba sendo gerado, ou seja, muito reforço positivo acaba sendo produzido. Na vida real não importa se a pessoa realiza caridade, se ela se compromete com as causas alheias, se acolhe animaizinhos que precisam de ajuda, pois o que faz na vida real não tem tanta visibilidade quanto o que faz na web. Ela não vai ganhar tanto ibope na vida real promovendo a caridade e se engajando em causas alheias. Não vai deixar de ganhar ibope, mas esse não é tão potencializado quanto pode ser via web.

Em função disso muitas pessoas aparentam se importarem na web com certas "causas" que na vida real elas não estão nem ligando. Hummm, a vida real não gera tanto ibope quanto o mundo virtual! Isso é preocupante, pois as contingências criadas pelo mundo virtual podem estar produzindo pessoas que vivam de aparências, que fingem ser algo que não são, que se escondem atrás de um perfil de rede social ou de um nick de uma sala de bate-papo. Portanto, o que acaba importando é a aparência e não a ação!

Hipótese número dois: como as pessoas não foram educadas para um mundo virtual, aliás, elas foram educadas em escolas com quadros negros - que sempre foram verdes - aos frangalhos, em escolas em que faltavam giz e apagador, e professor se virava para conseguir educar, não formaram um repertório de comportamentos que permita entender o mundo da web, principalmente o mundo das redes sociais. Uma pergunta para você: na vida real você fica compartilhando (falando) com seus amigos notícias sobre animaizinhos em situação de perigo, de pessoas em situação de calamidade social, de crianças com câncer que precisam de doações de R$0,05 (cinco centavos) com tanta frequência quanto faz nas redes sociais? Na vida real você acreditaria que cada vez que falasse destes assuntos uma quantia em dinheiro seria doada para um órgão qualquer? Certamente você não age assim e não é tão ingênuo de acreditar que falando destes assuntos algo concreto vai acontecer.

É uma questão de contingências de reforço. Se na vida real você agir como descrito acima, esse comportamento logo será colocado em extinção, pois ninguém vai doar nenhum dinheiro porque você fala de crianças com câncer. Você pode organizar um movimento para conseguir dinheiro para crianças com câncer, mas estaríamos falando de outro repertório de comportamentos que poderia produzir consequências reais. Mas o simples falar não gera doações em dinheiro, certo? Certíssimo, não gera mesmo! Por isso na realidade você não age como na web, pois as contingências são diferentes.

Na web os comportamentos acabam sendo reforçados com a função "curtir" ou "compartilhar" do facebook, e a pessoa pensa assim quando vê todo mundo curtindo e compartilhando: "se todos curtem e compartilham, então, vou fazer também". Surge daí uma regra que não descreve uma contingência real. Lembre-se, regras são descrições de contingências de reforço, descrições que descrevem relações do tipo "se/então". "Se" aperto o botão da tomada, "então" a lâmpada acende. A regra que descreve o comportamento de apertar o botão da tomada, que tem como consequência o acender da lâmpada, é uma regra que descreve uma contingência real, em que o "se" está relacionado com o "então".

Mas na web não é bem assim que acontece. "Eu compartilho esta imagem e a criança com câncer recebe uma doação de cinco centavos". A pessoa não vê a consequência final acontecendo, consequência que reforçaria todo o encadeamento de respostas que produziram o clicar e o compartilhar, pois esta consequência não existe, ela é lenda! Mas o que mantém o comportamento? O curtir de outras pessoas e a regra já descrita: "todo mundo compartilha, então deve ser verdade". O brasileiro não foi devidamente educado para se comportar no mundo virtual, então, falta no seu repertório comportamentos que permitam discriminar como funciona o infinito universo da web.

Enfim, podem existir outras hipóteses explicativas, mas estas que aqui foram levantadas nos dão uma ideia das diferenças existentes entre as contingências de reforço no mundo virtual e no mundo real, e dos tipos de comportamentos que ambas modelam. A questão é: estamos preparados para lidar com os comportamentos que as contingências de reforço do mundo virtual têm modelado?

E você, o que achou do artigo? Deixe seu comentário.

Outros artigos semelhantes a este? Abaixo você encontra outras indicações de leituras do Café com Ciência, não deixe de conferir.

-->

Leia mais...

As Bromélias e a Teia de Aranha

Por: Hélio José Guilhardi e Patrícia B. P. de S. Queiroz.

- Quanta bromélia junta! Formam um canteiro natural sobre a rocha.
- Olhe essa teia de aranha entre as folhas...
- Nem a tinha notado... Interessante: olhei e não a vi... Faltou alguma contingência para me fazer vê-la.
- Minha frase criou a contingência. Agora você a vê.
- Assim, no dia a dia, fica claro como o comportamento - de ver no caso - é controlado.
- Os cognitivistas diriam que você não “prestou atenção”, por isso não viu a teia.
- Nesse caso, “prestar atenção” antecederia ver? Seria um pré-requisito?
- Para os cognitivistas sim. No entanto, “prestar atenção” não é causa de ver. As contingências me levam a notar aspectos do meio, a “prestar atenção” em detalhes como a teia. Nesse sentido “prestar atenção”, definida como olhar para algo (teia) e nomeá-lo (“teia de aranha”) é comportamento.
- Mas, então, qual foi a contingência para eu ter notado as bromélias já que ninguém “chamou minha atenção” para eu vê-las?
- Neste caso, a contingência está na sua história de vida. Em algum momento, alguém lhe mostrou uma determinada planta (SD) e lhe disse “Isto é uma bromélia” (SD verbal com função de modelo para nomeação). A partir daí, quando você diante de uma bromélia verbalizou “bromélia” (R verbal), sua comunidade verbal a consequenciou com algum tipo de reforço positivo (“Muito bem”, “Isso mesmo”, “Vê como as bromélias são lindas?”, etc.).
- Mas, se aprendi em casa o que é uma bromélia, como a reconheço nas rochas?
- Se o treino discriminativo foi repetido com diferentes tipos de bromélias, em diferentes circunstâncias, você, provavelmente, formou o “conceito bromélia”. Isto é, passou a ser capaz de dizer “bromélia” para muitos tipos diferentes de plantas,  todas bromélias: generalizou dentro da classe de estímulos (bromélias grandes ou pequenas, floridas ou sem flores, ao vivo ou em fotos, etc.). Simultaneamente, discriminou entre classes de estímulos  (não diz “bromélia” diante de uma avenca, ou de uma samambaia, etc.). Tendo formado o “conceito bromélia”, portanto, você está habilitada a identificá-la (uma vegetal bromélia tem função de SD para você) e a nomeá-la em qualquer ambiente.
- Se esse treino ocorreu no passado, onde ficou armazenado para eu usá-lo no presente?
- A idéia de “armazenamento” é cognitivista. Aquilo que foi aprendido não fica “guardado” em nenhum arquivo psicológico, de onde é retirado quando necessário.
- Mas, eu nem estava pensando em bromélias e quando as vi imediatamente as reconheci.
- O “conceito bromélia” está no organismo. Tudo que é aprendido (passou pela condição indispensável de ter sido exposto a uma contingência de reforçamento) passa a fazer parte do organismo. Assim,  organismo é o conjunto formado pelo equipamento biológico e pelo repertório de comportamentos adquiridos. 
- Entendo. Uma pessoa que nunca aprendeu o que é “bromélia” não poderia nomeá-la, mesmo a tendo diante dos olhos. Não teria pré-requisitos para  vê-la. O que não entendo, então é, o papel dos olhos? Eu não vejo com os meus olhos? 
- É uma questão interessante. A resposta é não. Os olhos, enquanto equipamento biológico, são um pré-requisito para o comportamento de “ver”, mas não bastam para ver. O que faz um organismo ver, através ou com os olhos, são as contingências que produzem uma discriminação visual. 
- Como assim?
- Suponha que você olhe para uma lâmina com sangue através das lentes de um microscópio antes de uma aula prática sobre células sanguíneas. Embora, os diferentes tipos de células sanguíneas estejam lá você não conseguirá distingui-las. Após a aula, em que lhe foram ensinados os conceitos  de eritrócitos, eosinófilos, basófilos, plaquetas, etc. você “verá” os diferentes  tipos de células. Foram as contingências (produzidas pela aula) que lhe ensinaram a ver aquilo que você não via antes de ter os conceitos, embora as células estivessem o tempo todo diante de seus olhos. Assim, são necessários os olhos (parte do organismo) e as contingências ambientais para ocorrer o comportamento de ver.
- Acho que entendi. Preciso pensar mais sobre isso... Mas, se  fui ensinada a ter o “conceito” de “bromélia”, ou seja, se sou, digamos, “um organismo bromeliado”, por que não fico dizendo “bromélia” o tempo todo?
- Porque o “conceito bromélia” está no organismo e também nas contingências ambientais. O “organismo bromeliado”, como você disse (aquele que incorporou o conceito de bromélia em função de sua história de vida) está apto para nomeá-la, mas precisa ser exposto a contingências que  evoquem, num determinado momento ou contexto, a resposta verbal para, de fato, nomeá-la. Assim, poderia ser a visão de uma bromélia (SD), a minha presença (um ouvinte com função de SD e com provável função de Sr) como aconteceu no episódio. Poderia ter sido outra contingência, por exemplo, alguém perguntar “O que é uma bromélia?”, “Quem viu uma bromélia?", etc. 
- Mas, houve um momento no nosso percurso em que sem ter visto nenhuma bromélia eu “pensei” nela.
- Pensou em quê exatamente?
- Pensei que nestas montanhas, bem que poderíamos encontrar bromélias...
- Seu pensamento estava, neste exemplo, sob controle do ambiente físico: um local onde há certa probabilidade de existirem bromélias. (É pouco provável que você pensasse em bromélias no meio do oceano, por ex., exceto sob circunstâncias arbitrárias especiais, como ouvir alguém dizendo “Estou com vontade de comer abacaxi..."). É um exemplo de generalização de estímulos. A probabilidade de pensar em bromélia depende da  força da resposta: contingências sob as quais o comportamento foi instalado e o grau de semelhança entre os estímulos presentes e aqueles sob os quais a resposta foi condicionada.
- Você tem razão... Eu já havia visto bromélias em uma região semelhante a esta numa outra viagem que fiz. Agora, o que me chamou a atenção na sua explicação foi que você tratou o meu pensamento como se fosse um outro comportamento qualquer.
- Exato. Pensar é comportar-se. O pensamento é comportamento, sujeito às mesmas leis que qualquer outro comportamento. Sua única particularidade é o acesso para observá-lo. Como se trata de um comportamento privado, sua observação só é acessível à própria pessoa que se comporta (pensa): você no caso.
- Ainda uma coisa me deixa em dúvida... Quando você me perguntou em que exatamente eu havia pensado, dei-lhe uma resposta, mas não foi tudo. De fato, pensei que queria encontrar uma bromélia mas ,além disso, eu “vi” a bromélia que gostaria de encontrar. Posso até descrevê-la para você. Mas, como posso “ter visto” uma planta, com sua flor vermelha, se ela não estava ali?
- Quando você diz que “viu” alguma coisa, e neste caso você viu uma planta que não estava presente, está se referindo a uma outra classe de comportamentos encobertos, que não exatamente pensar. Usualmente, emprega-se nestes casos o verbo imaginar. Ou seja, você imaginou que estava vendo uma planta (é como se você estivesse vendo uma imagem). A concepção de ver uma imagem é também dualista: é como se existisse um objeto e uma cópia dele e em circunstâncias especiais nós vemos a cópia, a imagem. Um resquício da concepção religiosa de corpo-alma, que por sua vez se baseia na filosofia platônica do mundo das sensações e das idéias...
- Como explicar, então, que eu “vi” a bromélia florida?
- A explicação seria a mesma usada para explicar o comportamento de pensar, como foi feito acima, mas agora aplicado a outra classe de comportamento: “ver na ausência do objeto visto”. Assim, é necessário um SD ambiental, no caso região montanhosa, onde bromélias podem ser encontradas. Uma  história passada em que existiram contingências que lhe ensinaram a discriminar (visualmente) uma bromélia, a ter um conceito visual de bromélia, ou, mais específico ainda, de bromélias com flores vermelhas e ainda lhe ensinaram que bromélias crescem e florescem em regiões montanhosas parecidas com a que você está escalando. Sem essa história de contingências e sem o controle de estímulo ambiental você não “veria” bromélias. A bromélia que você “viu” não está no mundo platônico das idéias, está na relação entre seu organismo e o aspecto funcional do ambiente; está nas contingências passadas e atuais.



Leia mais...

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Autoestima: uma breve análise comportamental

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

Vamos começar pelo desmembramento da palavra: auto + estima. Auto é relativo a si mesmo. Autobiografia, por exemplo, é uma narrativa que conta a história do próprio autor que a escreveu. Estima é o apreço que se tem por alguém. Estima vem do verbo estimar. Estimar significa determinar o valor. Na frase, "os cientistas estimam que o sol ainda brilhará por 5 bilhões de anos", estimar significa calcular, ou seja, os cientistas calculam que o sol ainda vai brilhar durante muito tempo. De estimar vem a palavra estimativa, que é o mesmo que calcular aproximadamente. Quando se faz uma estimativa, na verdade está se calculando aproximadamente o valor de alguma coisa. Então o cálculo dos cientistas são estimativas, pois não podem determinar aproximadamente por quanto tempo o sol vai brilhar.

O que importa é que estimar significa determinar o valor de algo. A todo instante estamos determinando o valor das coisas. Uma pessoa pode ter para nós um valor maior ou menor dependendo do seu comportamento. Se seu comportamento é para mim fonte de reforçamento positivo, certamente essa pessoa terá um grande valor para mim. Valorizamos, por exemplo, os nossos pais, pois apesar de todos os problemas eles nos ajudaram e ajudam em diversas circunstâncias da vida. Sim, há aqueles que por motivos vários não valorizam seus pais, e isso é explicável pela história de reforçamento, pela história que está por trás deste relacionamento estabelecido entre filhos e progenitores.

Se por outro lado, o comportamento de uma determinada pessoa é para mim fonte de controle aversivo, esta pessoa terá então um valor menor ou nenhum valor, ou seja, minha estima por ela será muito pequena, meu sentimento de afeição por ela será bem diminuto. Como sentimento é comportamento, com pouca frequência demonstrarei minha afeição por esta pessoa, e se o fizer este comportamento não será assim tão intenso como seria com outra pessoa que tenho muita estima. Se assim o fizer a topografia (aparência/forma) do meu comportamento não demonstrará que meu afeto é assim tão intenso. Para entender porque sentimento é comportamento, leia outros posts em que esta questão é desenvolvida, para isso clique aqui.

Então, o leitor já deve ter percebido que o comportamento de estimar está relacionado com aquilo que sinto com relação às pessoas com quem me relaciono. Tem também relação com a forma como percebo as pessoas. Tanto o sentir quanto o perceber, que são comportamentos, são determinados pelas contingências de reforço que se fazem presente nos relacionamentos estabelecidos com as pessoas. Ou seja, o que sinto com relação a uma pessoa é determinado pelos efeitos dos comportamentos dela sobre os meus comportamentos.

Se os efeitos são agradáveis tomo essa pessoa como alguém agradável. Descrevo minha relação com ela como sendo uma relação agradável. Essa descrição é uma regra. Regras são descrições de contingências de reforço, descrições que fazem relação do "se" com o "então". "Se" eu fizer isso "então" acontece aquilo. Se eu me aproximar de "fulano" ele vai me tratar bem, então vou me sentir realizado. Consequentemente criarei circunstâncias que favoreçam o encontro com esse "fulano". Aqui temos a explicação para o comportamento de perceber.

As chamadas "representações mentais" que se formam a partir da percepção, são na verdade regras que descrevem relações do tipo "se"/"então". Não há representações mentais e nem há um processo chamado percepção que aglutina dados sensoriais e forma imagens na mente. Perceber algo é reagir a uma dada circunstância em função dos estímulos presentes nesta circunstância e das consequências gerados pelo nosso comportar-se. Se diz que o artista tem uma percepção mais refinada para arte do que o leigo. O artista tem uma história de reforçamento que modelou comportamentos de discriminar com maior precisão artes deste ou daquele profissional. Ele estudou, se informou, pesquisou, dedicou sua vida às artes, e nada mais natural que reaja a uma tela num museu de uma forma diferente da forma como reagiria o leigo.

O artista seria capaz de dizer que tinta foi usada na tela, quando ela foi pintada e a qual escola artística ela pertence, pois tem em seu repertório comportamentos que o leigo não tem. Não é sua percepção que é diferente, mas sim seu repertório de comportamentos. Sua percepção não tem nada de diferente. Ele simplesmente reage às circunstâncias, às contingências de reforço, pois tem em seu repertório os comportamentos apropriados para reagir de uma forma diferente da forma como reagiria uma pessoa leiga.

Agora aplique tudo que leu acima em si mesmo. Aplicando você entenderá que autoestima é nada mais nada menos do que o comportamento de estimar o próprio valor. Sua autoestima será elevada dependo da forma como se sente com relação a si mesmo e dependendo da forma como se percebe, ou seja, dependendo da forma como descreve a si mesmo. Mas o que sentimentos com relação a nós mesmos e a forma como nos descrevemos é fruto de nossa história.

Alguns aprenderam ao longo da vida que não têm valor nenhum, pois tendo sido mal avaliados por outras pessoas, tomaram a descrição destas como sendo verdadeiras, ou seja, utilizaram estas descrições como regras para descreverem a própria vida. A questão é que estas descrições podem estar erradas. Quando estão erradas geram autoavaliações disfuncionais. Por sua vez, estas avaliações disfuncionais criam circunstâncias aversivas que fazem as pessoas se sentirem mal. Quando se sentem mal dizem que têm uma baixa autoestima. Como mudar este sentimento? Mudando as contingências de reforço.

Uma terapia pode ajudar a pessoa a mudar as contingências que determinam o comportamento de se avaliar de forma tão negativa. O que importa é a pessoa saber o quanto a sua autoavaliação a incomoda. Se houver incômodos é hora de procurar ajuda, pois este incômodo pode gerar interferências em outros comportamentos, tornando, desta forma, a vida menos produtiva. Uma vida menos produtiva pode se tornar escassa em reforçamento positivo. Por sua vez a escassez de reforçamento positivo pode gerar uma série de outros problemas comportamentais (emocionais).

Outros artigos semelhantes a este? Abaixo você encontra outras indicações de leituras do Café com Ciência, não deixe de conferir.

-->

Leia mais...

domingo, 13 de janeiro de 2013

Democracia brasileira: que democracia?

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

O Brasil é um país que tem como regime político a democracia. Enquanto regime político a democracia se caracteriza pela possibilidade de participação da população na gestão do bem público. Em termos analíticos-comportamentais a democracia cria contingências de reforço que permitem que membros de uma dada sociedade possam exercer contracontrole sobre seus governantes. Ao mesmo tempo aqueles que governam estão sujeitos aos efeitos das legislações que por eles são criadas, ao menos em tese é o que deveria acontecer. Por sua vez estas legislações descrevem contingências de reforço que especificam que tipo de consequências seguirão cada tipo de comportamentos emitidos em espaços públicos. Podem ser consequências reforçadoras ou podem ser consequências punitivas. Na maior parte das vezes elas são punitivas.

Se a democracia cria espaços de participação popular, ou seja, permite o exercício do contracontrole, é de se esperar que esta participação não seja punida pelos governantes, pois a punição poderia suprimir os comportamentos de participação, o que acabaria por descaracterizar a própria democracia, transformando-a em uma espécie de absolutismo disfarçado de regime democrático. E não é que isso é muito comum no Brasil?

Com a popularização das redes sociais, que se transformaram em espaços de intensa participação popular, o controle da circulação das informações acabou fugindo ao poder daqueles que governam. Se estes podem controlar a imprensa local, e fazem isso legalmente através de contratos entre prefeituras e mídias impressas, e por vezes também com mídias televisivas, não podem fazer o mesmo com o espaço da internet e redes sociais. Com estes contratos a mídia impressa noticia aquilo que quem governa quer que seja noticiado. O reforço condicionado dinheiro tem grande poder de controle.

Mas este reforço pouco atinge os comportamentos de quem participa nas redes sociais. Se este é ineficaz, entra em cena o controle aversivo, entra em cena a coerção, ou seja, a punição ou ameaça de punição. Quem está no poder tem acesso privilegiado a espaços e instrumentos que um sujeito comum não tem. Consequentemente pode desfrutar de reforços que são inacessíveis ao restante da população e perder estes reforços não é algo que faça parte dos planos. Perder estes reforços representa a possibilidade voltar à condição de sujeito comum, de sujeito que não pode usar a máquina administrativa para ameaçar ou para estabelecer relações de influências que produzirão inúmeros estímulos reforçadores.

Estas relações de influências são muito comuns na política brasileira. As ciências políticas chamam este tipo de fenômeno de fisiologismo. O fisiologismo consiste na troca de favores, leia-se cargos, entre partidos para a manutenção de apoio político. Partidos trocam cargos para manterem o controle da máquina administrativa e assim aumentarem suas chances de se perpetuarem no poder. No fundo trata-se de uma troca de reforços que acabam por manterem estas práticas culturais, e estas práticas criam contingências que fazem a manutenção de comportamentos de usar o público como se privado fosse. A utilização do público como se privado fosse é chamada de patrimonialismo.

O público acaba sendo tomado como patrimônio particular, uma espécie de volta ao absolutismo, em que uma família ou grupo de pessoas se "agarram ao osso", ou melhor dizendo, se agarram ao poder e nele se mantêm por meio de nomeações em que somente o grupo é beneficiado. Desta prática deriva a nomeação de parentes para cargos públicos importantes. A consequência direta deste tipo de prática é que pessoas que não têm competência técnica acabam ocupando funções que são determinantes na gestão de segmentos importantes do patrimônio público.

Abre-se mão dos critérios técnicos, e no lugar entram os critérios da politicagem, os critérios da troca de favores. Isso acaba provocando indignação. Se a impressa local geralmente está sob controle do poder público, em que lugar a indignação encontra terreno livre para ser manifestar? Se você pensou nas redes sociais, digo-lhe que está correto. Por isso as redes sociais se popularizaram tanto como meio para o exercício do contracontrole, e em muitos lugares elas têm causado um profundo incômodo. Em muitos lugares pessoas têm se unido para formarem grupos que agem como fiscalizadores do poder público. E não é essa a essência da democracia, ou seja, a de criar espaços quer permitam inclusive que a sociedade fiscalize o poder público?

Portanto, em tempos de globalização e popularização da internet e redes sociais é necessário que nossos governantes repensem suas posturas. Aqueles que não se atentarem para o poder da internet podem correr sérios riscos de serem extintos, ou melhor dizendo, correm o risco de terem suas carreiras como políticos extintas. E se depender deste blogueiro que vos fala as redes sociais vão se popularizar cada vez mais como instrumentos para o exercício do contracontrole, algo que as ciências sociais chamam de controle social.

Outros artigos semelhantes a este? Abaixo você encontra outras indicações de leituras do Café com Ciência, não deixe de conferir.

-->

Leia mais...

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

A Difícil Tarefa de Falar de Sentimentos

-->
Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

Você já percebeu que falar de sentimentos e emoções não é uma tarefa muito fácil? Nós psicólogos vivenciamos isso todos os dias na clínica. Muitos dos nossos clientes querem falar de seus sentimentos, mas as palavras parecem escapar-lhes, e quando alguma palavra é encontrada ela parece não descrever com exatidão aquilo que se sente. No entanto, não é um "privilégio" dos psicólogos poder observar de perto a dificuldade que a maior parte das pessoas têm de falar de seus sentimentos. Aliás, é bom que se diga que os profissionais da psicologia não estão isentos desta dificuldade, afinal de contas nós também somos humanos, e como o resto da humanidade aprendemos a falar de nossos sentimentos com quem não tem acesso ao que estamos sentindo.

Já assinalamos em outros textos que emoções são comportamentos.Tenha acesso a alguns destes textos clicando aqui. O behaviorista não atribui às emoções nenhum status especial. Ele não considera as emoções como os fatores causais daquilo que fazemos. Tanto o que sentimos quanto o que fazemos são comportamentos selecionados (modelados) pelas contingências de reforço que fomos sendo expostos ao longo da vida. Isso não quer dizer que as contingências filogenéticas, aquelas relacionadas à sobrevivência da espécie humana e as contingências culturais não tenham um papel na causação do comportamento emocional.

As contingências filogenéticas selecionaram os comportamentos respondentes que são eliciados quando nos emocionamos. Quando alguém, por exemplo, diz sentir ansiedade, na verdade está relatando algumas transformações fisiológicas que estão se processando no organismo: taquicardia, respiração ofegante, queimação no estômago ou ânsia de vômito, tensão muscular, etc. Estas transformações fisiológicas são os respondentes eliciados quando se sente ansiedade. Isso é apenas parte do comportamento emocional de se sentir ansioso. Outra parte se manifesta através de comportamentos operantes: agitação, fala acelerada, dificuldade de concentração, impaciência, etc.

As transformações fisiológicas foram selecionadas ao longo da evolução das espécies por causa do seu valor de sobrevivência. Imaginemos o caso da ansiedade. Taquicardia e respiração ofegante, por exemplo, ajudam o organismo a entrar num estado de alerta que o prepara para a fuga e contra-ataque. Nos primódios da civilazação humana o Homem disputava alimentos e abrigo com outras espécies, fugir e contra-atacar foram respostas adaptativas selecionadas por contngências filogenéticas. O problema do mundo moderno é que qualquer sinal insignificante de perigo é interpretado como motivo para fugir e contra-atacar, e isso explica porque tantas pessoas têm problemas relacionados com a ansiedade e porque muitas outras vivem explodindo e contra-atacando aquilo que se considera um objeto de temor.

Mesmo os comportamentos de contra-atacar e fugir não são puramente filogenéticos. Há neles um componente operante. Se o contra-ataque minimiza ou elimina os sinais de perigo, acaba por se estabelecer uma contingência de reforçamento negativo. Se a fuga evita danos à integridade física, também se estabelece uma contingência de reforçamento negativo. Mas as respostas de aceleração cardíaca, respiração ofegante, entre outras são puramente filogenéticas, cuja função é colocar o organismo em condições para fuga ou contra-ataque. Neste sentido, podemos dizer que ansiedade enquanto comportamento emocional é um comportamento adaptativo, pois ajudou o homem na luta por alimentos e abrigo.

Mas se a ansiedade como qualquer outro comportamento emocional pode ser um comportamento adaptativo, por que temos padrões emocionais que acabam produzindo problemas, que acabam colocando a integridade do organismo em risco? A resposta está nas contingências de reforço. Se alguém é muito ansioso, pode ser que tenha tido uma história repleta de muitas punições. Sendo assim, vários foram os estímulos que se associaram às punições e por isso se tornaram estímulos aversivos. Então, a pessoa age como se tudo fosse aversivo, como se estivesse prestes a ser punida, por isso precisa manter-se alerta. Uma generalização de estímulos é responsável por este estado de prontidão.

As contingências culturais também têm um papel na causação do comportamento emocional. É dito, por exemplo, que os brasileiros são bastantes expressivos, enquanto que os ingleses são mais frios e introspectivos. Se analisarmos a cultura brasileira encontraremos contingências que favorecem a extroversão, enquanto na Inglaterra encontraremos outras contingências completamente diferentes. Uma análise completa dos comportamentos emocionais também deve levar em consideração estas contingências. Um psicoterapeuta brasileiro atendendo um inglês deve ter o cuidado de não forçar a ocorrência de certos comportamentos emocionais, caso contrário pode criar contingências de controle aversivo que levem o cliente a fugir do tratamento.

Até aqui aprendemos que emoções são comportamentos. Por trás da causação dos comportamentos emocionais estão contingências filogenéticas, contingências de reforço (ontogenéticas) e contingências que envolvem o processo de transmissão da cultura. Resta responder a seguinte pergunta: por que é tão difícil falar de emoções? Lembremos que parte do que ocorre enquanto nos emocionamos são comportamentos respondentes (mudanças fisiológicas). Boa parte destes mudanças geram transformações no interior do organismo, geram estímulos interoceptivos, estímulos que ocorrem no interior do organismo, estímulos que correspondem exatamente aquilo que sentimos quando nos emocionamos.

Estes estímulos são privados, pois só quem tem acesso a eles é aquele que se emociona. Quando descrevemos que estamos sentindo determinada emoção, estamos na verdade descrevendo a ocorrência destes estímulos gerados por comportamentos respondentes. A questão é que aprendemos a descrever tais estímulos, ou descrever nossos estados emocionais com quem  não tem acesso ao que estamos sentindo. Chamamos de comunidade verbal aqueles que nos ensinam tal tarefa. A comunidade verbal é formada por todos os membros que fazem parte dos grupos aos quais frequentamos ao longo da vida: família, escola, grupos sociais, etc.

Se a comunidade verbal não tem acesso ao que sentimos, como ela nos ensina a falar de nossas emoções? Ela faz isso com base em eventos públicos que acompanham nossos estados emocionais. Vamos a um exemplo. Imagine uma criança que ao aprender a dar os seus primeiros passos acaba caindo e ferindo a boca. Imediatamente ela começa a chorar. A mãe presume que ela está sentindo dor e começa a dizer: "oh dó, está doendo bebê? Machucou a boquinha? Fez dodói?" Assim a criança aprende que aquilo que está sendo sentido se chama dor.

Mas não é em todos os estados emocionais que há um evento púbico claro acompanhando um estímulo privado que se presume estar ocorrendo. A comunidade verbal vai sempre inferir a presença de um estímulo privado a partir de eventos públicos correlatos, mas estes últimos nem sempre são assim tão evidentes. Deste fato deriva-se a dificuldade que geralmente temos em falar de emoções, pois aprendemos a relatá-las de modo bastante impreciso, e toda imprecisão decorre do acesso que a comunidade não tem aos estímulos que se originam da ocorrência de comportamentos respondentes.


Este é um dos principais motivos que explicam a dificuldade que todos temos em falar de emoções. Há outros. Emoções que geram estimulação aversiva também vão ser relatadas com dificuldades, pois os estímulos aversivos irão gerar comportamentos que concorrerão com o comportamento de relatar a emoção sentida. Pessoas com pouco treino em habilidades sociais também podem sentir muita dificuldade ao falar de emoções, pois o falar pressupõe um ouvinte (plateia), e a ausência de comportamentos que permitam a socialização transforma as situações sociais em fontes de estímulos aversivos.

Portanto, antes de julgarmos alguém, é bom que nos questionemos se estamos em condições de descrever o que a pessoa está sentindo. Nem sempre os eventos públicos que acompanham os comportamentos emocionais são pistas confiáveis para aquilo que as pessoas estão sentindo. Ao lembrarmos disso evitamos os riscos de chegarmos a conclusões precipitadas a respeito daquilo que as pessoas sentem.

E você, o que achou deste texto? Manifeste sua opinião.

Outros artigos semelhantes a este? Abaixo você encontra outras indicações de leituras do Café com Ciência, não deixe de conferir.


Leia mais...