sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Educação para o mundo virtual: discutindo o papel da escola

Por: Bruno Alvarenga Ribeiro.

O mundo está em constate transformações. A certeza que temos hoje é que o mundo tal como o conhecemos agora não será mais o mesmo amanhã, e não há nenhum exagero em pensar assim, pois a todo instante estão ocorrendo eventos que têm o potencial de mudar para sempre o curso da história. E o mais impressionante é a velocidade com que estes eventos são divulgados. Tudo isso graças a algo que conhecemos como internet.

A internet foi uma das mais fabulosas inovações tecnológicas criada pelo bicho Homem. Ela agilizou as comunicações e aproximou pessoas. Ela transformou negócios e criou novos nichos de mercado. Criou meios para divulgação do conhecimento que eram inimagináveis há algumas décadas. Hoje é possível estar a par das principais descobertas científicas apenas com alguns poucos cliques. A internet criou a possibilidade das escolas virtuais e do ensino a distância. Ela aproximou cientistas, aproximação que acelera o processo de produção de conhecimento científico. E contribuindo na divulgação deste conhecimento ela acaba favorecendo a democracia, pois o princípio mais básico dos regimes democráticos é o acesso à informação.

Portanto, a internet é um instrumento formidável! Mas... Sim, sempre existe um "mas"! Duas questões precisam ser pensadas: a forma de se utilizar esse incrível instrumento que é a internet e as consequências de sua utilização sobre o comportamento das pessoas. Começemos pela primeira questão: as pessoas sabem utilizar a internet?

A julgar pela forma como as redes sociais são utilizadas, é temoroso afirmar que sabemos usar a internet e todo o potencial comunicativo que elas nos oferece. Redes sociais na maior parte do tempo são utilizadas para o compartilhamento daquelas entendiantes correntes de ajuda, daquelas correntes que apelam para o coração bondoso das pessoas solicitando doações de cinco centavos para o compartilhamento de fotos de pessoas doentes. Escrevi sobre isso recentemente no artigo intitulado "Redes Sociais e Correntes de Ajuda: uma análise comportamental."

Levantei naquela ocasião a hipótese de que este comportamento das pessoas na internet tem relação com nosso sistema educacional. Gostaria neste texto de desenvolver melhor este raciocínio. Nosso sistema educacional não tem acompanhado na mesma velocidade as inovações tecnológicas que ocorrem no seio da sociedade. Pelo menos no que se refere ao ensino público isso pode ser considerado uma verdade. Mas mesmo no ensino privado não vamos encontrar em todas as escolas aulas de informática e laboratórios de computadores.

Muitas escolas da rede privada já dispõem de inúmeras tecnologias. Em várias é possível encontrar o uso de tablets e notebooks em sala de aula em substituição ao tradicional caderno. Nestas escolas cadernos estão se transformando em peças de museu, sim aquele objeto com folhas de papel riscadas formando linhas para anotações já  vem sendo descartado. Haverá um tempo em que as pessoas saberão o que é  um caderno?

Na rede pública muitos alunos não sabem o que é um caderno também, mas não porque eles estão sendo substituídos pelas maravilhas tecnológicas do universo da informática, e sim porque comprar um caderno requer sacrifícios que afetam o orçamento familiar. Em muitas escolas públicas carteiras e cadeiras são artigos de luxo. Na maioria delas o quadro negro continua sendo verde, e muitas vezes está em péssimo estado de conservação. Em tantas outras falta giz para se escrever no quadro e os professores acabam improvisando.

Já em algumas se vê iniciativas tímidas para o ensino de informática, mas ainda são excessivamente tímidas. O poder público ainda não se atentou para a urgente necessidade do sistema educacional acompanhar as mudanças que ocorrem no seio da sociedade. Se não houver este acompanhamento a educação de nossas crianças estará sempre defasada, e elas não poderão desenvolver em seus repertórios comportamentos que as capacite para enfrentar as contingências que vão além dos muros escolares.

Mas não basta equipar as escolas com computadores. Isso simplesmente não resolve o problema. Equipar as escolas é uma parte da resolução do problema. Depois de equipadas as escolas precisam rever seus currículos. Não adianta ter computadores com acesso à internet se os currículos escolares não criam contingências de reforço que venham a modelar comportamentos de como se comportar no mundo virtual. E a reforma dos currículos escolares é uma questão a ser enfrentada tanto pelo ensino público quanto pelo ensino privado.

Não estou querendo ser antiguado e defender que as escolas devam ensinar regras de etiqueta sobre como se comportar no universo infinito da web. Etiqueta não é o termo mais adequado. Mas as escolas devem ensinar não somente como abrir e fechar um navegador. Elas também devem ensinar o aluno a analisar as consequências que seu comportamento na internet pode produzir. Se isso for feito as redes sociais existentes na web poderão ser utilizadas para promover a expansão de contatos sociais e não simplesmente para o compartilhamento inconsequente de correntes de ajuda ou posts de disseminação de preconceitos.

E a expansão de contatos sociais não pode ser simplesmente uma questão de números, mas sobretudo uma questão de qualidade. Pessoas adicionam umas as outras em redes sociais para produzir números. Mas e a qualidade das relações? As relações permanecem na superficialidade, evitando-se, assim, contatos que afetivamente poderiam ser mais produtivos. A consequência disso é que a afetividade passa a ser vista como algo aversivo, como algo a ser evitado, pois pode causar problemas. Vejam aí o reforçamento negativo! A afetividade vai se associando ao controle aversivo, e assim a vida afetiva vai sendo encarada como fonte de problemas.

E aqui paramos um pouco para pensar nas consequências desta maravilhosa inovação tecnológica que é a internet sobre os comportamentos individuais e até mesmo coletivos. Será que a internet não tem transformado contatos sociais em números? Um contato é um número numa rede social... Outra questão preocupante: o acesso faciltado a inúmeras fontes de prazer criadas pela internet não tem gerado pessoas socialmente isoladas? Se posso buscar prazer na net, por que haveria de buscá-lo em contatos sociais genuínos?

Na internet impera a lógica da facilidade... Gerou problema se exclui com um clique! E será que essa lógica não vem sendo transposta para a realidade? Ou seja, quando alguém do meu contato social se transforma em fonte de problemas eu simplesmente não ajo de maneira a excluir a pessoa? Aqui não sou eu perguntando para mim mesmo. As perguntas são interlocuções que o leitor pode usar para refletir sobre o seu próprio comportamento.

Portanto, neste novo cenário mundial dominado pelas tecnologias da informação, o sistema educacional tem um papel fundamental, o papel de preparar pessoas para lidar com contingências de reforço que potencializam a possibilidade de reforçamento positivo, reforçamento que acaba sendo contingente a comportamentos improdutivos, como os comportamentos de passar o dia todo na frente de um computador, comportamentos que concorrem com outros comportamentos como o de trabalhar, estudar, namorar, etc. Reforço positivo contingente a comportamentos improdutivos gera a longo prazo uma sociedade formada por pessoas que não sabem lidar com as adversidades, pessoas que não sabem encarar frustrações, pois estão tão acostumadas aos prazeres fáceis produzidos com poucos cliques que acabam recuando diante as dificuldades.

É hora de pensarmos seriamente numa reforma curricular que dê mais espaço para as tecnologias da informação, mas que seja uma reforma que também pense os impactos destas tecnologias sobre o comportamento das pessoas e que as eduque para utilizá-las de maneira produtiva.

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